O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou nesta quarta-feira (19) que a aplicação de medidas de reciprocidade comercial contra os Estados Unidos não deve ocorrer antes de dezembro. O governo pretende usar os próximos meses para levantar informações sobre os efeitos das tarifas americanas e, antes de adotar uma reação, tentar negociar uma solução com Washington.

Processo terá até 60 dias para reunir informações

O procedimento foi iniciado internamente depois que o Brasil comunicou a abertura do processo aos demais participantes e aos Estados Unidos. A partir de agora, os ministérios terão até 60 dias para apresentar dados que poderão embasar um relatório sobre os impactos das tarifas impostas pelos norte-americanos.

O ministro explicou que, neste momento, o governo ainda não discute qual medida poderá ser aplicada. A reciprocidade pode envolver ações equivalentes às barreiras adotadas pelo outro país, mas qualquer decisão dependerá da avaliação dos efeitos sobre setores produtivos, exportadores e a balança comercial brasileira.

Governo ainda espera negociar com os Estados Unidos

Rosa disse que o contato inicial com Washington serviu apenas para comunicar o começo do procedimento. Na avaliação do ministro, ainda há tempo para que os dois países negociem e consigam “resolver, ou pelo menos aplacar minimamente as questões” antes do fim do ano.

Ele classificou as tarifas americanas como uma barreira comercial “ilegal”, “indevida” e “abusiva”. Cerca de 47% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estão sujeitas a tarifas de 12,5%, 25% ou 37,5%. Dentro desse grupo, 16% das exportações enfrentam a alíquota mais alta, de 37,5%.

Impacto sobre a balança comercial será medido no fim do ano

O ministro afirmou que o efeito total das tarifas sobre a balança comercial — a diferença entre o que o país exporta e importa — será calculado ao fim do ano. A avaliação deverá considerar não apenas a redução das vendas aos Estados Unidos, mas também a capacidade de redirecionar produtos para outros mercados.

Segundo Rosa, a participação americana na pauta exportadora brasileira diminuiu, enquanto as vendas para outros países aumentaram. Ele citou Egito, Índia, Peru, Vietnã e China como mercados nos quais o Brasil mantém saldo comercial positivo.

Brasil busca reduzir dependência de um único mercado

Como parte dessa estratégia, o governo quer ampliar as relações comerciais com a Asean, associação que reúne 11 países do Sudeste Asiático. Rosa afirmou ter proposto aos integrantes do bloco um acordo de integração produtiva, além de possíveis entendimentos na área de investimentos.

O ministro disse que a Asean, considerada em conjunto, é o quinto maior parceiro comercial do Brasil. A aproximação com países asiáticos e com a União Europeia é vista pelo governo como uma forma de diversificar os destinos das exportações e reduzir a dependência de poucos compradores.

Negociação não será vinculada às eleições brasileiras

Rosa rejeitou a ideia de atrelar as tratativas com os Estados Unidos ao calendário eleitoral brasileiro. Segundo ele, o governo pretende manter as conversas concentradas em temas comerciais e econômicos, sem incluir questões políticas internas do Brasil.

O ministro também atribuiu a queda das exportações brasileiras para a Argentina a fatores econômicos, e não ideológicos. De acordo com ele, a redução das vendas de automóveis pesou no resultado, enquanto o conflito político recente entre os dois governos ainda não teria tido tempo de produzir efeitos sobre os dados comerciais.

Para quem investe ou acompanha a economia, o próximo marco será a coleta de informações pelos ministérios e a eventual divulgação do relatório sobre os impactos das tarifas. Até lá, o governo sinaliza que não haverá retaliação imediata: a prioridade será negociar com os Estados Unidos e preparar uma resposta apenas depois de avaliar os efeitos sobre exportações, empresas e emprego.

Impacto para a sociedade

A disputa tarifária pode afetar empresas exportadoras, empregos ligados à indústria e os preços de produtos vendidos ao exterior. Se o conflito comercial se prolongar, mudanças nas vendas brasileiras e na entrada de mercadorias importadas podem influenciar a atividade econômica e o custo de alguns produtos.