O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol), classificou como decepcionante o trabalho de Gabriel Galípolo à frente do Banco Central e criticou a autonomia da instituição, aprovada em 2021. Para Boulos, o ritmo de queda da Selic — a taxa básica de juros da economia — está muito lento, avaliação que recoloca no centro do debate a influência do governo sobre a política monetária.

Boulos cobra redução mais rápida dos juros

Em entrevista publicada na sexta-feira (4), Boulos afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esperava uma política de redução dos juros quando indicou Galípolo para comandar o BC. “O ritmo de queda da taxa de juros é absolutamente decepcionante”, disse o ministro.

Ele também criticou a decisão de manter a Selic em determinado nível por um período depois de cortes considerados lentos. Boulos ressaltou, porém, que falava em nome próprio e que não era porta-voz da área econômica do governo nem afirmava representar a avaliação de Lula ou de outros ministros.

Crítica inclui mandato do Banco Central

Na avaliação de Boulos, o BC deveria considerar mais fatores além da inflação ao definir os juros. Ele comparou o modelo brasileiro ao do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, que tem entre seus objetivos a estabilidade de preços e o nível de emprego.

O ministro afirmou que o BC brasileiro continua concentrado em um mandato único de controle da inflação. Na visão dele, um mandato que também levasse explicitamente em conta o desemprego poderia resultar em uma leitura diferente sobre o nível adequado da Selic.

Autonomia é chamada de problema para a democracia

Boulos questionou a autonomia do Banco Central, estabelecida durante o governo Jair Bolsonaro. O mecanismo dá ao presidente e aos diretores do BC mandatos com duração própria, reduzindo a possibilidade de mudanças imediatas na cúpula da instituição após a eleição de um novo governo.

“Quantos votos tem o presidente do Banco Central? Eu nunca vi o nome dele na urna”, afirmou. Para o ministro, a autonomia cria um problema democrático porque o presidente eleito, apesar de receber o mandato popular, não teria capacidade de exercer nenhum tipo de influência sobre a taxa de juros.

Ministro também rejeita corte de políticas sociais

Na mesma entrevista, Boulos criticou a defesa de cortes de gastos públicos como caminho para controlar a dívida. Ele defendeu que um eventual ajuste fiscal recaia sobre desonerações, benefícios tributários e setores de maior renda, e não sobre despesas como saúde e educação.

O ministro citou benefícios fiscais do agronegócio e o custo anual dos juros da dívida pública como temas que deveriam fazer parte da discussão. Também afirmou que a política econômica do governo ampliou o investimento público e rejeitou a avaliação de que a trajetória da dívida brasileira esteja fora de controle, comparando-a aos níveis de países como Japão e Itália.

O que a disputa significa para famílias e investidores

A Selic afeta diretamente o custo do crédito: quando permanece elevada, empréstimos, financiamentos e compras parceladas tendem a ficar mais caros, o que reduz o consumo e pode dificultar investimentos das empresas. Ao mesmo tempo, juros altos aumentam a remuneração de aplicações de renda fixa e costumam tornar esses investimentos mais atraentes em relação a ativos de maior risco.

Uma redução mais rápida poderia aliviar o crédito e estimular a atividade, mas a velocidade dos cortes depende da avaliação do Copom sobre inflação, expectativas e contas públicas. O debate provocado por Boulos não altera, por si só, a decisão do Banco Central; o próximo passo será acompanhar as justificativas do colegiado para o nível dos juros e os efeitos dessa política sobre inflação, emprego e crescimento.

Impacto para a sociedade

A discussão envolve a Selic, que influencia as taxas de empréstimos, financiamentos e aplicações de renda fixa. Uma mudança no ritmo dos juros também afeta o consumo, o investimento das empresas, a inflação e a geração de empregos.