O Bank of America (BofA) elevou nesta terça-feira (8) a recomendação para as ações brasileiras, de neutra para acima do peso de referência, e passou a projetar a Selic em 11,25% ao ano no fim de 2027. A previsão, inferior aos 12,75% estimados anteriormente e aos cerca de 14% embutidos hoje nos preços do mercado, é o principal gatilho para a visão mais positiva sobre a Bolsa.

Juros menores são a base da nova tese do BofA

O banco avalia que a desaceleração da atividade econômica e a redução dos riscos de inflação podem permitir um ciclo de cortes mais profundo do que o esperado. Para 2026, a projeção é de Selic em 13,25%, nível que também seria mantido em 2028.

Quando os juros caem, o custo de financiamento das empresas tende a diminuir e o valor presente dos lucros futuros aumenta. Isso pode melhorar os chamados múltiplos, indicadores usados para comparar o preço das ações com sua capacidade de gerar lucro, especialmente entre companhias que foram mais penalizadas pelo dinheiro caro.

Quais empresas podem reagir melhor aos cortes

A estratégia do BofA privilegia empresas mais sensíveis aos juros, incluindo companhias ligadas ao mercado de capitais, negócios mais endividados e os chamados equivalentes a títulos de renda fixa. Estas últimas costumam ter receitas e fluxos de caixa mais previsíveis, mas também sofrem quando a renda fixa oferece retornos elevados.

A queda do custo da dívida pode aliviar o balanço de empresas alavancadas e estimular operações de financiamento, captação e negociação no mercado. Ainda assim, o banco combina essa exposição com grandes companhias líquidas, geradoras de caixa e com histórico consistente de execução, porque a Selic continuaria elevada mesmo após os cortes.

Desconto da Bolsa pode diminuir, segundo o banco

Excluindo as empresas de commodities, o Ibovespa é negociado com desconto de aproximadamente 10% em relação à sua média histórica. Na avaliação do BofA, uma política monetária mais flexível pode reduzir esse desconto, mesmo diante de riscos como revisões para baixo nas estimativas de lucro, demanda mais fraca e incertezas eleitorais.

A recomendação mais favorável, porém, não significa aumento generalizado da exposição a commodities. O banco mantém posição neutra em materiais, por meio da Vale, e em petróleo, por meio da Petrobras. A preferência está concentrada nas empresas mais diretamente beneficiadas pela eventual queda dos juros.

Fluxo estrangeiro começa a mudar de direção

O BofA também identifica sinais de retorno do capital estrangeiro. Nos dez pregões anteriores, investidores estrangeiros direcionaram R$ 6 bilhões para ações à vista, revertendo parte dos R$ 20 bilhões retirados nos três meses anteriores.

O movimento ocorre após a acomodação do chamado investimento em inteligência artificial, período em que o Brasil teve desempenho superior ao de Taiwan, da Coreia do Sul e dos fabricantes americanos de semicondutores. O banco também observou cobertura de posições vendidas, quando investidores encerram apostas na queda, ajudando as ações mais pressionadas a superar a média do mercado desde meados de agosto.

Bolsa sobe, mas cenário ainda depende dos juros

Às 13h22 desta terça-feira (8), o Ibovespa avançava 1,34%, aos 187.644 pontos, depois de alcançar a máxima de 189.487 pontos. A alta também recebeu apoio das commodities, como petróleo e minério de ferro, além do acompanhamento de novas pesquisas sobre a disputa presidencial.

O JPMorgan e o Morgan Stanley adotaram uma postura mais cautelosa recentemente, citando o fim próximo do ciclo de cortes, a desaceleração econômica, a piora do crédito e uma relação menos favorável entre risco e retorno. Agora, o mercado acompanha se os dados de atividade e inflação confirmarão a leitura do BofA e se o Banco Central terá espaço para levar a Selic ao patamar projetado. Para quem investe, a implicação é que ações sensíveis aos juros podem reagir às expectativas antes de qualquer corte efetivo; para consumidores e empresas, o efeito concreto dependerá das decisões futuras do Copom.

Impacto para a sociedade

A projeção do Bank of America não muda imediatamente os juros cobrados de consumidores e empresas, mas indica um possível cenário de crédito mais barato no futuro. Se a Selic realmente cair, aplicações de renda fixa tendem a oferecer retornos menores, enquanto empresas endividadas e consumidores podem se beneficiar da redução do custo dos empréstimos.