O Bank of America (BofA) avalia que o mercado brasileiro já precifica parte de um cenário mais favorável para os ativos locais antes da eleição presidencial: com o Ibovespa perto de 183 mil pontos, os preços indicariam cerca de 40% de chance para o cenário de alta traçado pelo banco, ante 27% há um mês. O dado sugere que parte do otimismo já está refletida nas cotações, embora a disputa siga aberta e o risco fiscal possa limitar novos ganhos.
O otimismo cresceu, mas poucos querem ampliar posições
A melhora também aparece na pesquisa mais recente do BofA com gestores da América Latina. 73% dos entrevistados esperam que o Ibovespa termine o ano acima de 180 mil pontos, mais que o dobro dos 34% registrados no mês anterior. Apesar disso, apenas 30% dizem que aumentariam sua exposição à Bolsa nos níveis atuais; a maioria prefere esperar uma correção ou mais clareza sobre o quadro eleitoral.
O índice acumula alta de cerca de 12% em relação às mínimas do ano, apoiado pela retomada gradual dos fluxos estrangeiros. Ainda assim, está aproximadamente 6% abaixo das máximas de 2026. A combinação de expectativas mais positivas com cautela para investir indica que a valorização recente não eliminou as dúvidas dos participantes do mercado.
Juros menores são parte essencial do cenário de alta
Para o BofA, a continuidade da valorização depende, entre outros fatores, da trajetória da Selic. Os juros reais, que descontam a inflação, seguem próximos de máximas históricas. O cenário otimista do banco considera a taxa básica em 10,50% no fim de 2027, além de crescimento um pouco maior dos lucros das empresas e de uma avaliação mais favorável das ações.
Juros menores podem reduzir gradualmente o retorno oferecido por novas aplicações de renda fixa e baratear o crédito, embora o efeito dependa das condições de cada operação. Para as empresas, um custo de financiamento menor pode favorecer investimentos e resultados; na Bolsa, também pode tornar as ações relativamente mais atraentes. No cenário de baixa do BofA, não haveria novos cortes de juros e os múltiplos das ações permaneceriam deprimidos. O banco ressalta que são cenários analíticos, não previsões eleitorais.
Contas públicas são o principal risco para a Bolsa
O banco afirma que o desempenho das ações depois da eleição dependerá não apenas de quem vencer, mas da capacidade do próximo governo de apresentar medidas fiscais críveis e executáveis. A dívida bruta é projetada em 83,1% do PIB no fim de 2026, acima dos 71,4% observados quando o atual governo assumiu. Para estabilizar essa trajetória, o relatório calcula que seria necessário um ajuste equivalente a cerca de 3,5% do PIB.
A tarefa é dificultada pelo fato de que mais de 90% dos gastos federais são obrigatórios, o que limita o espaço para cortes. Para o investidor, a falta de clareza sobre como o governo lidaria com a dívida pode elevar a incerteza sobre juros e atividade econômica. O BofA resume que o problema fiscal é central para a eleição e para a avaliação dos ativos brasileiros.
Valuation elevado deixa menos espaço para decepções
As ações brasileiras negociadas fora dos setores de commodities estão cerca de 7% acima da média histórica ajustada pelos juros, segundo o banco. Isso não significa que os preços não possam subir, mas torna relevante o risco de resultados empresariais abaixo do esperado. O BofA destaca revisões negativas para os lucros de 2027 como uma ameaça à Bolsa.
Na prática, o cenário combina uma expectativa de melhora com riscos que ainda não foram resolvidos. Os próximos sinais a acompanhar são a evolução das propostas fiscais, a trajetória dos juros e as estimativas de lucro das empresas. Como parte do cenário positivo já parece incorporada aos preços, mudanças nessas expectativas podem influenciar a direção do Ibovespa, sem que os cenários do banco garantam um resultado específico.
Impacto para a sociedade
A discussão sobre juros e contas públicas pode afetar o custo do crédito, o rendimento de aplicações e a capacidade do governo de financiar serviços. Uma piora fiscal também pode pressionar o dólar e, se encarecer produtos importados, contribuir para a inflação.
