O Bank of America reafirmou a recomendação de venda para as ações do Banco do Brasil (BBAS3) e passou a trabalhar com preço-alvo entre R$ 20 e R$ 21. No relatório mais recente, o alvo principal foi reduzido de R$ 21 para R$ 20, o que representa uma queda potencial de 11% em relação ao último fechamento considerado pelos analistas.
Por que o BofA continua cauteloso com BBAS3
Na avaliação do banco americano, a alta das ações do Banco do Brasil nas últimas semanas, impulsionada pelo chamado rali eleitoral, não eliminou os riscos ligados aos resultados da instituição. O principal problema apontado está na necessidade de aumentar as despesas com provisões — valores reservados para cobrir possíveis perdas com empréstimos que podem não ser pagos.
O BofA estima que o lucro líquido do Banco do Brasil fique em R$ 17,6 bilhões em 2026. O número está abaixo do piso da faixa de projeções da própria instituição, que vai de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões, e reflete a percepção de piora na qualidade dos ativos do banco.
Perdas de crédito deixam de ser problema apenas rural
Embora o agronegócio continue no centro das preocupações, os analistas avaliam que a deterioração da carteira de crédito já não está limitada ao setor rural. Quando a inadimplência aumenta, o banco precisa separar mais recursos para absorver eventuais calotes, o que reduz o lucro no curto prazo.
O BofA projeta uma recuperação relevante do resultado em 2027, para R$ 23,6 bilhões. Mesmo assim, considera que o retorno sobre o patrimônio líquido, conhecido como ROE, ficaria em apenas 12,2%. Esse indicador mostra quanto lucro o banco gera em relação ao capital dos acionistas. Para os analistas, o nível ainda seria inferior ao custo de capital próprio, sinal de que a rentabilidade não compensaria adequadamente o risco assumido.
MP do crédito rural adiciona incerteza às contas
Outro ponto destacado é o efeito da Medida Provisória 1.376, que entrou em vigor no fim de agosto e criou mecanismos para a reestruturação de dívidas rurais. O BofA calcula que o Banco do Brasil possa renegociar aproximadamente R$ 30 bilhões em empréstimos, dentro de um programa que contempla R$ 100 bilhões.
O impacto financeiro, porém, depende das condições de cada operação. Entre os fatores estão o fato de o crédito já ter sido renegociado ou estar inadimplente e o volume de provisões que já havia sido constituído. Por isso, ainda é difícil estimar quanto o programa afetará as despesas do banco e a receita obtida com juros.
Benefício potencial pode ser menor que o estimado
Nas estimativas da administração do Banco do Brasil, o melhor cenário poderia acrescentar até R$ 200 milhões ao lucro líquido para cada R$ 1 bilhão renegociado. O BofA, entretanto, pondera que esse ganho potencial pode se aplicar somente a uma parcela reduzida dos créditos reestruturados.
Além disso, um eventual El Niño severo poderia atrasar a recuperação do agronegócio. Isso prolongaria as dificuldades financeiras de produtores e empresas do setor e, consequentemente, retardaria uma melhora na qualidade da carteira rural do banco.
O que o investidor deve acompanhar daqui em diante
O novo preço-alvo não representa uma previsão de que a ação necessariamente atingirá R$ 20, mas traduz a avaliação do BofA sobre o valor considerado adequado diante dos riscos projetados. A diferença entre a cotação e esse alvo ajuda a explicar por que os analistas mantiveram a visão negativa mesmo com a valorização recente do papel.
Para os acionistas, os próximos pontos de atenção são a evolução das provisões, os efeitos efetivos da renegociação das dívidas rurais e a capacidade de o banco recuperar sua rentabilidade em 2027. Esses fatores podem influenciar tanto o lucro quanto a percepção de risco sobre BBAS3, sem que a análise do BofA constitua, por si só, uma indicação de investimento.
