O Bank of America reduziu suas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) e para a Selic em 2026 e 2027 após identificar sinais de fadiga mais intensos na economia brasileira. O banco agora espera crescimento de 1,8% neste ano e de 0,9% no próximo, ante estimativas anteriores de 2,3% e 1,3%, respectivamente; para a taxa básica de juros, a previsão caiu para 13,25% no fim de 2026 e 11,25% no encerramento de 2027.
Estoques sustentaram o PIB do segundo trimestre
Na avaliação dos analistas David Beker, Natacha Perez e Gustavo Mendes, o resultado do PIB do segundo trimestre de 2026, divulgado no início de setembro, pareceu sólido à primeira vista. A composição, porém, mostrou uma economia menos resistente: praticamente toda a expansão veio da acumulação de estoques, que acrescentou 0,9 ponto percentual ao crescimento.
A demanda final, que mede o consumo e os investimentos efetivamente realizados, retirou cerca de 0,4 ponto percentual do resultado. A demanda doméstica ficou estável, enquanto as exportações líquidas também contribuíram negativamente, em 0,4 ponto percentual, na comparação trimestral com ajuste sazonal.
Consumo e indústria já mostram perda de força
O consumo das famílias, um dos motores recentes da atividade brasileira ao lado das exportações, recuou 0,4% no segundo trimestre ante os três meses anteriores, em dados ajustados sazonalmente. A queda ocorreu apesar de estímulos pré-eleitorais, do aumento de 0,4% no consumo do governo e de medidas de crédito voltadas a sustentar a demanda.
Os indicadores mensais reforçam essa leitura. A produção industrial caiu 0,9% em maio e 1,8% em junho, sempre na comparação com o mês anterior e com ajuste sazonal. As vendas no varejo ampliado recuaram 0,3% em maio e 1,0% em junho, enquanto o volume de serviços diminuiu 0,24% em maio e ficou estável em junho. O IBC-Br, indicador do Banco Central que acompanha a atividade, caiu 0,6% em junho, depois de ficar estagnado em maio.
Inflação menor pode antecipar o alívio nos juros
O BofA também vê uma combinação de atividade mais fraca, crédito desacelerando e inflação em trajetória favorável. Em julho, o banco já havia reduzido sua projeção para o IPCA de 2026 de 5,5% para 5,0%, após uma surpresa positiva no IPCA-15. Em agosto, o índice oficial registrou deflação, enquanto os núcleos, que excluem componentes mais voláteis, continuaram cedendo.
Com menor pressão sobre os preços e sinais de enfraquecimento da demanda, o cenário passa a comportar uma redução da Selic. Juros menores tendem a baratear empréstimos e financiamentos e podem estimular investimentos e consumo. Para quem aplica em renda fixa pós-fixada, porém, a queda reduz gradualmente o rendimento de novas aplicações atreladas à taxa básica, enquanto ações e outros ativos podem se beneficiar de um custo de capital menor.
Crédito perde potência como motor do consumo
O crédito corporativo vem desacelerando desde meados de 2025, segundo o relatório, porque as empresas são mais sensíveis ao custo elevado do dinheiro. As iniciativas do governo têm se concentrado principalmente nas famílias, com o consignado privado como principal exemplo.
O problema é que o endividamento das famílias continuou em níveis recordes a cada divulgação dos dados do Banco Central. Para o banco, isso sugere que o crédito pode estar perdendo capacidade de sustentar uma expansão baseada no consumo, inclusive em programas como o Move Brasil.
Riscos estão na política econômica e no exterior
O indicador de atividade do BofA aponta para nova desaceleração no terceiro trimestre. Os primeiros dados de julho mostraram alta de apenas 0,2% na produção industrial e estabilidade no volume de serviços, na comparação mensal, o que levou o banco a manter uma leitura mais cautelosa para os próximos meses.
As projeções ainda dependem da política econômica do próximo presidente da República. O banco também cita o risco de um real mais fraco caso os bancos centrais de economias desenvolvidas adotem postura mais restritiva. Para quem trabalha, consome ou investe, os próximos dados de inflação, atividade e crédito serão determinantes para confirmar se a perda de ritmo abrirá espaço para cortes de juros ou se os riscos fiscais e externos limitarão esse movimento.
Impacto para a sociedade
A revisão indica que a economia pode crescer menos, afetando a criação de empregos, a renda e o consumo ao longo dos próximos trimestres. Ao mesmo tempo, a inflação mais comportada e a atividade fraca podem abrir espaço para juros menores, o que tende a aliviar o custo de empréstimos, mas também reduz o retorno de novas aplicações de renda fixa atreladas à Selic.
