O Brasil tem pelo menos 355 domínios de bets ilegais para cada endereço autorizado, segundo levantamento da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL). O dado chama atenção para o alcance da oferta não autorizada: além dos 66.482 domínios bloqueados desde janeiro de 2025, cerca de 17,7% deles ainda poderiam estar acessíveis, de acordo com uma estimativa baseada em auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU).

O que os números mostram sobre a oferta ilegal

O Ministério da Fazenda tinha 187 domínios de empresas autorizadas. A comparação com os 66.482 endereços sem autorização bloqueados pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) resulta na proporção de 355 para um. O levantamento foi divulgado em setembro de 2026 e considera o período de janeiro de 2025 até aquele mês.

A estimativa de acessibilidade corresponde a aproximadamente 11,8 mil endereços bloqueados. Isso não significa que todos estejam necessariamente ativos ao mesmo tempo: o dado aponta que uma parcela poderia continuar sendo acessada apesar das medidas de bloqueio. A diferença entre bloquear um domínio e impedir o acesso efetivo a ele é central para entender o desafio de fiscalização.

Novos endereços aparecem mesmo após bloqueios

O monitoramento da ANJL registrou 6.409 domínios sem autorização em funcionamento entre 11 e 18 de setembro de 2026. Em outro recorte, de junho a agosto, a entidade identificou ao menos 13,7 novos domínios por dia. Nos canais de mensagens monitorados, surgiram pelo menos cinco sites diários no mesmo período.

Também foram documentados 1.682 casos em que uma marca deixou de operar em um endereço e reapareceu em outro. Esse movimento ajuda a explicar por que o bloqueio de páginas não elimina necessariamente a oferta: quando uma operação muda de domínio, pode tentar continuar alcançando apostadores por um novo endereço. Os números são registros do monitoramento da associação.

O que diferencia as plataformas não autorizadas

Segundo a ANJL, sites ilegais operam sem controle ou fiscalização do poder público e não recolhem os impostos previstos para o setor regulado. A entidade também afirma que essas plataformas recorrem a publicidade ostensiva para atrair apostadores, inclusive públicos vulneráveis, como crianças e adolescentes.

Sem autorização, as casas não estão sujeitas às mesmas obrigações do mercado regulado. Na prática, isso envolve diferenças na fiscalização e nas medidas de proteção ao consumidor. A associação argumenta que a presença de uma grande quantidade de domínios ilegais dificulta a efetividade das regras aplicadas às empresas autorizadas.

Proibição de cassinos on-line poderia ampliar o mercado ilegal

A ANJL simulou um cenário de proibição dos cassinos on-line. Na hipótese, a participação do mercado não autorizado nas apostas subiria de cerca de 41% para aproximadamente 80%, uma alta de cerca de 40 pontos percentuais. A entidade estima que entre R$ 8,2 bilhões e R$ 19,1 bilhões por ano poderiam migrar para a oferta ilegal.

A associação calcula ainda que a mudança poderia reduzir a arrecadação de impostos em R$ 3,6 bilhões a R$ 7,4 bilhões anuais. Esse valor seria adicional aos R$ 7,2 bilhões a R$ 10,8 bilhões que, segundo o levantamento, o mercado não autorizado já deixa de recolher. São estimativas da entidade para um cenário hipotético, não valores de perdas já confirmadas.

Proteção ao apostador e próximos pontos de atenção

No mercado regulado, 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) estão impedidos de apostar, e mais de 1,2 milhão de pedidos de autoexclusão foram registrados. Essas medidas não são obrigatórias nas plataformas ilegais, segundo a associação. A diferença pode reduzir as ferramentas disponíveis para quem busca limitar ou interromper as apostas.

O presidente da ANJL, Plínio Lemos Jorge, afirmou que restrições mais fortes às bets autorizadas podem ampliar a participação do mercado ilegal. Para o público, os dados deixam dois aspectos em foco: a capacidade de fazer os bloqueios funcionarem e a cobertura das proteções ao apostador. O monitoramento de novos domínios e a aplicação das regras serão importantes para avaliar se a oferta sem autorização continua se expandindo.

Impacto para a sociedade

A estimativa de endereços ilegais ainda acessíveis aponta que apostadores podem encontrar plataformas sem as mesmas exigências de proteção do mercado regulado. A associação também calcula que a atividade ilegal deixa de recolher impostos, recursos que poderiam integrar a arrecadação pública.