O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que está promovendo uma “Treasury Twist”, estratégia para tentar reduzir os rendimentos dos títulos de longo prazo. A iniciativa envolve recomprar papéis mais longos e aumentar a emissão de títulos de curto prazo, mas o efeito inicial perdeu força e indica que a alta dos juros americanos tem causas mais amplas do que a composição da dívida.
Como funciona a estratégia de Bessent
O plano anunciado na semana passada prevê a recompra de títulos públicos de longo prazo pelo Tesouro. Para compensar essa operação, o governo emitirá mais papéis de vencimento curto. O objetivo é diminuir a oferta de títulos longos no mercado e, com isso, reduzir seus rendimentos.
O mecanismo é relevante porque o preço e o rendimento de um título se movem em sentidos opostos: quando aumenta a procura pelo papel, seu preço tende a subir e a taxa oferecida ao investidor cai. Bessent comparou a operação à estratégia usada pelo Federal Reserve nos anos 1960 para influenciar a curva de juros, que mostra as taxas de títulos com diferentes prazos.
O alívio inicial não durou
Logo após o anúncio, os rendimentos dos títulos mais longos recuaram. O movimento, porém, foi temporário. O rendimento do Treasury de 10 anos, principal referência acompanhada por Bessent, encerrou a semana em 4,73%, perto das máximas desde o início do secretário no cargo, antes de recuar ligeiramente na segunda-feira, 24 de agosto.
A reação sugere que a medida pode melhorar a liquidez e o funcionamento do mercado, mas não resolve sozinha os fatores que pressionam as taxas. Analistas do JPMorgan avaliam que as condições de negociação dos Treasuries já melhoraram de forma significativa ao longo deste ano.
Dívida pública e inteligência artificial pressionam as taxas
Um dos obstáculos é o aumento do endividamento dos Estados Unidos. A dívida pública americana superou US$ 40 trilhões nesta semana, enquanto outros países desenvolvidos também ampliam seus passivos. Quanto maior a necessidade de financiamento, maior pode ser a oferta de títulos e a remuneração exigida pelos investidores.
Empresas também estão captando volumes recordes para financiar investimentos, especialmente em inteligência artificial. A Alphabet, por exemplo, fez neste mês uma emissão com vencimentos de até 40 anos. Essas captações disputam recursos com o governo e podem manter os juros longos elevados no curto prazo.
Inflação e incerteza sobre o Fed aumentam a pressão
A inflação voltou a acelerar depois que o presidente Donald Trump provocou turbulências nos mercados de energia ao iniciar um conflito com o Irã. Uma energia mais cara pode elevar custos para empresas e consumidores, levando investidores a exigir taxas maiores para compensar a perda de poder de compra ao longo do tempo.
Também pesa a incerteza sobre a estratégia do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh. Para Matt King, da Satori Insights, uma queda sustentável dos juros longos exigiria medidas que a administração provavelmente não deseja, como uma redução significativa do déficit, uma queda das bolsas ou uma desaceleração dos investimentos em inteligência artificial.
O que o mercado espera dos próximos passos
Parte dos analistas, contudo, não considera os rendimentos atuais anormalmente altos. Edward Yardeni afirmou que taxas entre 4% e 5% representam uma normalização da economia, e não necessariamente um desequilíbrio.
Bessent também disse que muitos investidores estão tomando decisões com base em informações incorretas sobre a situação fiscal americana. Nos próximos dias, ele pretende trabalhar com Russ Vought, diretor de orçamento da Casa Branca, em medidas para aumentar receitas e reduzir despesas.
Para quem acompanha os mercados, o próximo passo será observar se o Tesouro conseguirá reduzir os juros longos sem ampliar a percepção de risco fiscal. Uma queda das taxas pode aliviar o custo de financiamento do governo e influenciar ações, crédito e moedas no mundo todo. Se os fatores estruturais prevalecerem, porém, a “Treasury Twist” terá efeito limitado e os rendimentos continuarão dependentes da inflação, do déficit e da demanda global por capital.
