O Itaú BBA manteve a recomendação de compra para Afya e Yduqs ao avaliar os riscos e as oportunidades de uma possível combinação entre as duas empresas. Se aprovada, a operação criaria a maior plataforma de educação médica listada na bolsa brasileira, com mais de 6.500 vagas de Medicina, mas enfrentaria uma análise concorrencial concentrada em determinados mercados locais.

Cade deve avaliar concorrência cidade por cidade

O principal desafio apontado pelo banco é a análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A expectativa é que o órgão examine a concorrência por curso e por região, seguindo a abordagem adotada em operações anteriores do ensino superior, em vez de considerar apenas o tamanho nacional das companhias.

A sobreposição direta entre os campi das duas empresas ocorre em poucas cidades. Porém, quando se amplia o raio de influência de cada unidade, surgem pontos de atenção em Teresina, Ji-Paraná, Grande Belém, Grande Salvador e, principalmente, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Grande Rio concentra maior risco concorrencial

O Rio de Janeiro é o caso mais sensível para a operação. De acordo com a avaliação do BBA, a participação combinada de Afya e Yduqs chegaria a aproximadamente 50% das vagas privadas de Medicina em um raio de 50 quilômetros na região metropolitana.

Para reduzir as preocupações regulatórias, uma alternativa seria vender escolas de Medicina ou parte das vagas em áreas específicas. Essa solução preservaria a combinação em escala nacional, mas reduziria a concentração nos locais em que a presença conjunta das empresas é mais forte. A decisão dependeria do desenho final da transação e da análise detalhada de cada mercado.

Sinergias podem reduzir despesas da Yduqs

Além do ganho de escala, o BBA calculou o potencial de economia nas despesas administrativas da Yduqs. Em um cenário hipotético de redução de 20% nas despesas gerais e administrativas, a companhia poderia obter cerca de R$ 338 milhões em economias após impostos.

Parte desse benefício seria compensada por aproximadamente R$ 80 milhões em custos tributários adicionais ligados ao Pilar Dois da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que busca assegurar uma tributação efetiva mínima de 15% sobre os lucros de grandes multinacionais. Sem capturar integralmente as sinergias, o múltiplo estimado de preço sobre lucro da Yduqs para 2027 poderia subir de cerca de cinco para seis vezes por causa da carga tributária.

Combinação pode alterar disputa no ensino superior

Medicina é considerada uma das áreas mais atrativas do ensino superior por combinar margens elevadas, geração de caixa mais forte e demanda mais previsível. Uma empresa com mais de 6.500 vagas e presença nacional poderia ampliar o poder de sua marca, investir mais na operação e negociar ativos médicos com maior escala.

Esse movimento aumentaria a pressão competitiva sobre Ânima, Cruzeiro do Sul, Cogna e Ser Educacional, especialmente na disputa por alunos, novas vagas e futuras aquisições. Ao mesmo tempo, a análise do BBA não considerou possíveis sinergias de receita, como vendas adicionais, oferta cruzada de produtos e maior poder de negociação, o que deixa espaço para ganhos extras caso esses efeitos se concretizem.

O que observar antes dos próximos passos

Em um cenário de captura integral das sinergias, o BBA estima que o múltiplo preço sobre lucro da Yduqs para 2027 poderia ficar entre três e quatro vezes, ante uma faixa de quatro a cinco vezes caso a empresa permanecesse independente. A diferença reflete o potencial de redução de custos, mas depende da aprovação da operação e da execução das medidas previstas.

Para quem acompanha as empresas, os próximos pontos centrais são a estrutura definitiva da combinação, a avaliação do Cade nos mercados locais e a capacidade de transformar escala em economia efetiva. A recomendação do BBA permanece positiva para as duas ações, mas os riscos regulatórios e a realização das sinergias serão determinantes para o resultado da operação.