O Banco do Brasil (BBAS3) identificou forte deterioração na inadimplência do cartão de crédito no segundo trimestre de 2026: os atrasos superiores a 90 dias praticamente dobraram em três meses. O banco atribui o movimento a uma modalidade específica de parcelamento automático de faturas e afirma ter interrompido a operação, mas o episódio aumenta a pressão sobre uma carteira de pessoa física que vinha sendo considerada importante para reduzir a dependência do crédito rural.

Parcelamento sem entrada criou efeito de bola de neve

O principal problema surgiu em um mecanismo que permitia ao cliente parcelar automaticamente a fatura do cartão sem fazer um pagamento inicial. A solução era voltada principalmente a consumidores de menor renda, que recebiam uma alternativa para evitar o atraso imediato.

De acordo com Geovanne Tobias, vice-presidente de Gestão Financeira e de Relações com Investidores do BB, a modalidade acabou se “retroalimentando”. Na prática, o cliente que já tinha dificuldade para pagar a fatura podia acumular novos compromissos antes de quitar os anteriores, elevando a probabilidade de o atraso superar 90 dias — prazo usado pelos bancos como referência importante para caracterizar a inadimplência mais grave.

Banco diz que detectou o problema ainda no primeiro trimestre

A administração afirma que identificou o comportamento durante o primeiro trimestre de 2026 e encerrou a operação no fim de março. O banco também diz ter antecipado parte das provisões, que são reservas feitas para absorver perdas esperadas com empréstimos que podem não ser pagos.

Mesmo assim, o reconhecimento efetivo da inadimplência apareceu com mais intensidade no balanço do segundo trimestre. Felipe Prince, vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Riscos, explicou que a provisão foi registrada antes, enquanto a deterioração da carteira se materializou e foi reconhecida mais claramente entre abril e junho.

BB quer crescer na pessoa física com menos exposição ao risco

O banco reconhece que a expansão da carteira de pessoa física aumentou sua exposição a consumidores mais sensíveis ao ciclo econômico. Quando a renda das famílias fica pressionada, linhas como cartão e crédito não consignado tendem a registrar piora mais rapidamente, pois dependem do pagamento direto pelo consumidor.

A resposta será alterar a composição do crescimento, com maior foco em segmentos considerados mais resilientes e com melhor retorno em relação ao risco. Entre as prioridades estão clientes de alta renda, o crédito consignado — descontado diretamente do salário ou benefício — e a recuperação de créditos já atrasados.

Consignado privado enfrenta problema na troca de emprego

O BB também espera reduzir parte da inadimplência no consignado privado por meio de uma mudança operacional. Atualmente, quando o trabalhador troca de empresa, pode haver um intervalo até que a margem consignável — parcela da renda disponível para o desconto — seja transferida ao novo empregador.

O banco prevê automatizar esse vínculo empregatício ainda em agosto de 2026. A presidente Tarciana Medeiros afirmou que os atrasos observados nessa carteira são pontuais e decorrem principalmente do período entre empregos, e não necessariamente da falta de recursos do trabalhador. O BB também passou a utilizar o FGTS como garantia em determinadas operações.

O que observar nos próximos balanços

Para quem acompanha BBAS3, os próximos resultados devem mostrar se a interrupção do parcelamento automático conteve a deterioração do cartão e se as provisões antecipadas foram suficientes para absorver as perdas. Também será importante verificar se o crescimento da pessoa física ocorrerá em linhas menos arriscadas, sem repetir a pressão vista no agronegócio, que vinha sendo a principal preocupação do banco.

Para clientes, a mudança tende a significar maior seletividade na concessão e no parcelamento de crédito. Para trabalhadores que usam o consignado privado, a automatização da margem pode evitar atrasos causados pela troca de emprego. O episódio reforça que uma facilidade de pagamento pode aliviar a conta no curto prazo, mas elevar o custo e o risco de endividamento quando novas parcelas se acumulam.