O Banco do Brasil (BBAS3) começou nesta quarta-feira (26) a renegociar dívidas rurais dentro do programa criado pela Medida Provisória 1.376, com cerca de 113 mil produtores potencialmente elegíveis. As operações somam até R$ 100 bilhões e a iniciativa é considerada pelo banco uma das principais vias para reduzir a pressão sobre as provisões da carteira de agronegócio nos próximos meses.

Quem pode participar do programa de renegociação

A MP autorizou a criação de linhas especiais de crédito para produtores rurais e cooperativas que tiveram perdas provocadas por eventos climáticos ou por condições de mercado em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025. O objetivo é reorganizar os débitos, alongando ou ajustando as condições de pagamento para operações que ficaram comprometidas por ciclos sucessivos de perdas.

O alcance informado pelo banco é potencial: os 113 mil clientes possuem operações que podem se enquadrar nas regras, mas a adesão efetiva dependerá da análise de cada caso e do atendimento aos critérios do programa. Assim, o valor de até R$ 100 bilhões representa o estoque potencialmente abrangido, e não necessariamente o montante que será renegociado.

Por que a medida é importante para o balanço do BB

As provisões para devedores duvidosos são reservas que os bancos constituem para cobrir possíveis perdas com empréstimos. Quando uma dívida é renegociada e volta a apresentar condições de pagamento mais sustentáveis, a instituição pode reduzir a pressão sobre essas reservas ao longo do tempo, embora o efeito não seja automático nem elimine o risco de inadimplência.

A carteira de agronegócio do BB vem sofrendo com o aumento dos atrasos. No segundo trimestre de 2026, a inadimplência acima de 90 dias alcançou 6,27%, contra 3,16% no mesmo período de 2025 e 6,22% no primeiro trimestre deste ano. O indicador mostra que o problema se agravou fortemente em um ano e permaneceu praticamente estável na comparação trimestral.

Renegociação ocorre antes do plantio da safra 2026/27

O início do programa coincide com a preparação dos produtores de grãos para a safra 2026/27, especialmente de soja e milho. A reorganização das dívidas pode ajudar agricultores afetados a recuperar acesso ao crédito e a planejar a compra de insumos, máquinas e outros custos do próximo ciclo.

O cenário, porém, continua pressionado. A soja, principal produto do agronegócio brasileiro, deve ter uma área plantada praticamente estável em 2026/27, após anos de expansão mais intensa. Margens menores, endividamento elevado e crédito mais restrito e caro dificultam a capacidade de investimento dos produtores.

O que ainda pode limitar o resultado da medida

A renegociação pode acelerar a regularização de operações problemáticas, mas seu resultado dependerá da recuperação financeira dos produtores e das condições das próximas safras. Se as margens continuarem apertadas ou novas perdas climáticas e de mercado ocorrerem, parte dos débitos poderá voltar a pressionar a carteira do banco.

Para o BB, o programa representa uma tentativa de interromper a deterioração dos índices de pagamento no agronegócio. Para os produtores, oferece uma oportunidade de reorganização financeira em um momento decisivo do calendário agrícola, mas não elimina a necessidade de geração de receita suficiente para honrar os compromissos revisados.

Próximos passos para o banco e os produtores

O Banco do Brasil deve avançar na avaliação individual das operações potencialmente elegíveis e na formalização dos novos contratos. O principal dado a acompanhar será a evolução da inadimplência rural nos próximos trimestres, além do impacto das renegociações nas provisões e nos resultados da instituição.

Para quem investe, a medida pode influenciar a percepção sobre o risco da carteira agro do BB, mas seus efeitos financeiros tendem a aparecer gradualmente. Para o setor produtivo, o benefício imediato é a possibilidade de recuperar previsibilidade para a safra 2026/27; para o banco, o desafio será transformar a renegociação em pagamentos efetivos, e não apenas em adiamento dos problemas.