Os grandes bancos brasileiros estão elevando as exigências de garantia e priorizando clientes de renda mais alta diante da piora nas finanças das famílias. A mudança, identificada após os balanços do segundo trimestre, reduz a disposição das instituições para conceder crédito sem garantia a tomadores considerados mais arriscados e sinaliza uma preparação para uma fase mais difícil da economia.

Bancos reduzem exposição ao crédito mais arriscado

Itaú, Bradesco, Santander Brasil e Banco do Brasil transmitiram uma mensagem semelhante ao comentar os resultados: o crescimento deve se concentrar em operações com menor risco de calote. Entre elas estão o crédito consignado, descontado diretamente do salário ou benefício, e linhas com algum ativo ou recebível como garantia.

Na prática, a estratégia tende a restringir modalidades como cartão de crédito e empréstimo pessoal para consumidores de menor renda. Essas operações não exigem um bem como respaldo e, por isso, costumam ter custo mais alto para compensar o risco assumido pelo banco. Com a piora do cenário, as instituições podem reduzir limites, aprovar menos propostas ou exigir condições mais rigorosas.

Endividamento avançou mesmo com emprego forte

A cautela ocorre apesar de o mercado de trabalho permanecer forte e a renda seguir em alta. O principal alerta é que o comprometimento de renda das famílias, parcela do orçamento destinada ao pagamento de dívidas, está próximo de 50% da renda disponível, em níveis considerados muito elevados.

Para a analista Katherine Hennings, da consultoria BRCG, a postura defensiva reconhece que a economia pode estar se aproximando de uma desaceleração após um período de expansão sustentado, em parte, pelo aumento do endividamento. Historicamente, ciclos de forte expansão do crédito acompanhados de maior dívida das famílias são seguidos por quedas mais intensas no consumo.

Itaú e Bradesco veem piora na capacidade de pagamento

O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, afirmou que o volume de crédito distribuído no mercado está muito acima do que as famílias teriam capacidade de absorver. Segundo ele, o cenário piorou recentemente e levou o banco a dar prioridade a operações com garantia.

O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, também destacou que a instituição se tornou muito mais seletiva. A direção do Banco do Brasil informou que espera uma redução da inadimplência de pessoas físicas no próximo ano à medida que o crescimento se concentre no consignado público e privado.

Projeções apontam desaceleração em 2027

A cautela dos bancos também está relacionada às expectativas para a economia. A mediana de mais de 100 economistas consultados pelo Banco Central no Boletim Focus prevê crescimento de 1,5% do Produto Interno Bruto em 2027, abaixo da projeção de aproximadamente 2% para 2026.

O Banco do Brasil é ainda mais conservador e trabalha com expansão de apenas 1% em 2027. Uma economia crescendo mais lentamente tende a limitar a geração de renda e a capacidade de pagamento, aumentando o risco de atrasos mesmo quando o desemprego permanece baixo.

O que muda para consumidores e investidores

Para quem precisa de crédito, a tendência é de acesso mais fácil nas linhas consignadas ou respaldadas por garantias, enquanto empréstimos pessoais e cartões podem ficar mais restritivos. A expansão de programas e políticas voltados ao consumo, além da atuação de fintechs e da digitalização dos pagamentos, ampliou o acesso de pessoas antes excluídas, mas também acelerou o endividamento em modalidades caras.

Para quem investe, o movimento indica que os bancos estão priorizando qualidade da carteira em vez de crescimento acelerado. O próximo passo será acompanhar se a seletividade consegue conter a inadimplência sem provocar uma contração mais forte do consumo e da atividade econômica.

Impacto para a sociedade

A mudança pode dificultar o acesso a empréstimos, cartões e financiamentos para famílias de menor renda, justamente as mais dependentes dessas modalidades. Com menos crédito sem garantia e maior exigência dos bancos, consumidores podem enfrentar limites menores, juros mais altos ou necessidade de oferecer um bem como garantia. Se o endividamento continuar elevado, o consumo e a atividade econômica também podem perder força, afetando empresas e empregos.