Executivos dos principais bancos do país afirmaram que responsabilidade fiscal e desenvolvimento social precisam caminhar juntos no próximo ciclo político, que começa após a eleição presidencial de 2026. A avaliação é que controlar a dívida sem ampliar a produtividade, a educação e a saúde não será suficiente para reduzir os juros de forma sustentável e recolocar o Brasil em uma trajetória de crescimento.
Por que os bancos querem um plano fiscal para 2027
O debate foi colocado no centro das discussões pelos presidentes de Itaú Unibanco, Bradesco, Nubank, Santander Brasil, BTG Pactual e Caixa Econômica Federal. Para os executivos, o próximo governo precisará apresentar uma estratégia clara para o período de 2027 a 2030, em vez de limitar a campanha a discursos políticos.
Marcelo Noronha, do Bradesco, afirmou que o mercado precisa conhecer propostas concretas para equilibrar as contas e estabilizar a dívida pública. O banco calcula que existam alternativas fiscais equivalentes a aproximadamente R$ 580 bilhões, ou 5% do Produto Interno Bruto (PIB). A cifra representa o tamanho do ajuste necessário nas estimativas mencionadas pelo executivo, mas sua execução dependeria de decisões políticas.
Juros altos são consequência do desequilíbrio das contas
Milton Maluhy Filho, do Itaú, resumiu sua avaliação dizendo que “o juro é o sintoma, não a causa”. De acordo com ele, o endividamento do país aumentou cerca de 12 pontos percentuais nos últimos quatro anos, enquanto a dívida pública já se aproxima de R$ 10 trilhões.
Quando o governo gasta mais do que consegue financiar de forma considerada sustentável, investidores passam a exigir maior remuneração para comprar títulos públicos. Esse prêmio de risco influencia toda a economia: dificulta a queda dos juros, encarece o crédito para empresas e famílias e pode reduzir o investimento e o consumo.
Maluhy também defendeu que a discussão não fique restrita ao superávit primário, que desconsidera o pagamento de juros da dívida, e passe a considerar o déficit nominal, que inclui essa despesa. Na visão do executivo, juros reais elevados por muito tempo desaceleram o crédito, aumentam a inadimplência e enfraquecem a atividade.
Desenvolvimento social aparece como parte da solução
A defesa de disciplina fiscal, para os executivos, não significa abandonar políticas sociais. Maluhy afirmou que o país precisa de um plano de longo prazo voltado a educação, saúde e competitividade, áreas que podem elevar a produtividade — isto é, a capacidade de produzir mais e melhor com os recursos disponíveis.
O mecanismo é relevante porque crescimento sustentável amplia a arrecadação sem depender apenas de aumento de impostos ou de cortes de despesas. Com mais produtividade, empresas tendem a investir e contratar mais, enquanto trabalhadores podem obter maior renda. O desafio é compatibilizar esses investimentos com limites para o gasto público e para o avanço da dívida.
Um cenário internacional com menos margem para erros
As cobranças ocorrem em um ambiente externo considerado mais caro e imprevisível. Guerras, tarifas comerciais, tensões geopolíticas e o fim da fase de dinheiro abundante aumentaram a disputa por capital entre os países.
Nesse contexto, o Brasil precisa resolver seus desequilíbrios internos para não depender de condições internacionais favoráveis. Um país percebido como fiscalmente frágil pode enfrentar maior dificuldade para atrair recursos, o que pressiona o câmbio, os juros e os custos de financiamento.
O que vem a seguir para famílias, empresas e investidores
A eleição deverá tornar o plano fiscal dos candidatos uma variável importante para as expectativas econômicas. As propostas podem influenciar a percepção sobre a trajetória da dívida e, por consequência, o custo de empréstimos, financiamentos e investimentos de renda fixa.
Para as famílias, juros persistentemente altos significam crédito mais caro e maior risco de inadimplência. Para as empresas, reduzem o espaço para investir e contratar. Já uma combinação de ajuste fiscal, desenvolvimento social e aumento da produtividade poderia abrir caminho para juros menores no futuro, embora os efeitos dependam das medidas adotadas e da execução do próximo governo.
Impacto para a sociedade
A combinação entre controle das contas públicas e desenvolvimento social pode afetar juros, crédito, emprego e serviços públicos nos próximos anos. Se a dívida continuar pressionando as expectativas, o custo dos empréstimos tende a permanecer elevado; ao mesmo tempo, investimentos em educação, saúde e produtividade podem ampliar o crescimento e a geração de renda.
