BTG Pactual e C6 Bank intensificaram a disputa pelo mercado de vale-refeição (VR) e vale-alimentação (VA), um segmento estimado em R$ 150 bilhões por ano. Mais do que administrar os benefícios, os bancos querem usar os cartões como porta de entrada para conquistar clientes corporativos e oferecer serviços como crédito, folha salarial e soluções de pagamento.

Por que os bancos passaram a mirar os benefícios corporativos

O mercado de VR e VA ganhou importância estratégica porque aproxima as instituições financeiras das empresas e de seus funcionários. Ao participar da gestão desses benefícios, o banco aumenta os pontos de contato com o cliente empresarial e pode disputar outros produtos que já são oferecidos por instituições concorrentes.

A competição por empresas não se limita à conta corporativa. Os bancos também buscam contratos de folha salarial, crédito consignado e serviços de recebimento de pagamentos. Nesse cenário, o cartão de benefícios passa a complementar a proposta comercial oferecida aos empregadores.

O que mudou com as novas regras do PAT

As mudanças foram viabilizadas pelo Decreto 12.712, de 2025, que alterou o funcionamento do Programa de Alimentação do Trabalhador. Operadoras de grande porte, com mais de 500 mil clientes, deixaram de poder atuar em arranjos de pagamentos fechados.

No modelo antigo, cada operadora mantinha sua própria rede de restaurantes e supermercados credenciados. Com a infraestrutura compartilhada, o funcionamento se aproxima do sistema de cartões de débito e crédito: diferentes bandeiras podem processar transações em uma mesma rede de estabelecimentos.

A regulamentação também estabeleceu um limite para as taxas cobradas pelas operadoras e reduziu para 15 dias o prazo de repasse dos valores aos restaurantes. Essas medidas alteram a dinâmica de concorrência e podem facilitar a entrada de novos participantes.

BTG e C6 estruturam suas operações de VR e VA

O C6 Bank confirmou que está montando uma operação para emitir cartões de benefícios, com previsão de disponibilização no segundo semestre de 2026. O banco já disputa o relacionamento com empresas por meio do consignado privado, modalidade em que as parcelas são descontadas diretamente na fonte de pagamento.

O BTG Pactual prepara um cartão com bandeira Mastercard que reunirá vale-refeição e vale-alimentação. A iniciativa faz parte da expansão do banco para além de seu público tradicional, formado principalmente por clientes de alta renda e investidores institucionais.

No ano passado, o BTG também entrou no segmento de maquininhas após comprar a fintech Justa, especializada em soluções de adquirência para pequenas e médias empresas. A combinação de benefícios, pagamentos e serviços bancários amplia o relacionamento potencial com os clientes corporativos.

Como a nova concorrência afeta empresas e estabelecimentos

As mudanças regulatórias beneficiaram empresas de benefícios flexíveis, como Caju, Flash e Swile. Como essas companhias já trabalhavam em redes abertas, usando bandeiras como Visa e Mastercard, não precisaram adaptar o modelo de negócios às novas regras.

As operadoras tradicionais, por sua vez, historicamente contaram com parcerias acionárias ou comerciais com grandes bancos. A Alelo pertence à Elopar, controlada conjuntamente por Bradesco e Banco do Brasil, enquanto o Itaú Unibanco tem participação minoritária na Ticket Serviços.

Com mais concorrentes, as empresas contratantes podem receber ofertas mais integradas para administrar benefícios e pagamentos. Para restaurantes e supermercados, o prazo de repasse de 15 dias reduz o tempo de espera pelo recebimento das transações, enquanto o limite para taxas muda a estrutura de custos do setor.

O que observar na próxima etapa da disputa

A estratégia dos bancos depende de transformar o benefício corporativo em relacionamento financeiro recorrente. O head de banking do BTG, Bruno Peuker, afirmou que a aposta reflete uma visão de longo prazo sobre a demanda por soluções integradas que simplifiquem a gestão das empresas.

Para quem trabalha, o efeito mais visível tende a estar na aceitação dos cartões em estabelecimentos e na administração do benefício. Para as empresas, a novidade é a possibilidade de contratar VR e VA junto com outros serviços financeiros. A evolução das operações do BTG e do C6 mostrará quanto espaço os novos participantes conseguirão conquistar em um setor antes dominado por redes tradicionais.

Impacto para a sociedade

A disputa pode afetar trabalhadores que recebem vale-refeição e vale-alimentação, já que a mudança nas regras tende a ampliar a aceitação dos cartões em restaurantes e supermercados. Para as empresas, os benefícios passam a integrar uma oferta mais ampla de serviços financeiros, enquanto os estabelecimentos têm prazo menor para receber os valores das vendas.