As ações do Banco do Brasil (BBAS3) acumulam alta de aproximadamente 26% desde o fechamento de 13 de agosto, quando o mercado reagiu negativamente ao balanço do segundo trimestre. O papel passou de R$ 18,23 para R$ 23,03 em 21 de setembro, mas a recuperação ainda é vista com cautela diante da inadimplência elevada, das provisões e da dificuldade de retomada consistente da rentabilidade.

Alta recupera parte das perdas após o balanço

Somente em setembro, até o dia 21, BBAS3 subia 8,39%, enquanto a valorização acumulada em 12 meses chegava a 9,01%. A alta recente combina a percepção de que o preço estava descontado, uma melhora parcial dos resultados e expectativas de redução da Selic.

Quando há perspectiva de queda dos juros básicos, aplicações de renda fixa pós-fixadas tendem a oferecer retornos menores, o que pode aumentar o interesse por ações. Ao mesmo tempo, uma Selic mais baixa reduz gradualmente o custo de captação e pode favorecer a demanda por crédito. Esse efeito, porém, depende da qualidade dos empréstimos e da velocidade com que os juros chegam às famílias e empresas.

Lucro cresceu, mas não convenceu totalmente

O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026, alta de 3,3% ante o mesmo período de 2025 e de 13,9% sobre o primeiro trimestre deste ano. A margem financeira bruta foi de R$ 27,5 bilhões, crescimento anual de 9,6%, enquanto a carteira ampliada alcançou R$ 1,31 trilhão, avanço de 1,4% em 12 meses.

O banco manteve a projeção de lucro líquido ajustado entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões em 2026. Ainda assim, analistas avaliam que o resultado trimestral não comprova uma melhora estrutural. Bradesco BBI, Itaú BBA, JPMorgan e Goldman Sachs destacaram preocupações com a qualidade dos ativos, o capital e o tempo necessário para a rentabilidade se recuperar.

Inadimplência do agronegócio segue como principal risco

A inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,61% no segundo trimestre, ante 3,95% um ano antes. No agronegócio, o índice chegou a 6,27%, maior nível da série histórica iniciada em 2014. As operações rurais atrasadas há mais de 90 dias somavam cerca de R$ 26,4 bilhões.

Parte da recuperação depende da renegociação das dívidas dos produtores. O banco estima que até R$ 100 bilhões em operações do setor possam ser enquadrados na Medida Provisória 1.376. Desse total, R$ 36,7 bilhões correspondem a créditos inadimplentes e R$ 63,5 bilhões a dívidas em dia que já foram renegociadas ou prorrogadas.

O BTG Pactual alertou, porém, que dificuldades regulatórias, operacionais e orçamentárias têm atrasado a implementação dessas renegociações. Quanto mais lenta for a regularização, maior tende a ser a pressão sobre as provisões, que são os recursos separados pelo banco para cobrir possíveis perdas.

Eleição aumenta a volatilidade de BBAS3

Como o Banco do Brasil é controlado pela União, o papel reage com intensidade às expectativas eleitorais. O mercado monitora possíveis mudanças na gestão, na política de crédito, na governança e na distribuição de dividendos.

Pesquisa BTG/Nexus divulgada em 21 de setembro mostrou Luiz Inácio Lula da Silva com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 37% de Flávio Bolsonaro. Em um eventual segundo turno, os números foram de 46% a 45%, em empate técnico dentro da margem de erro.

O que acompanhar depois da alta

Para quem investe, a valorização de 26% mostra uma mudança importante no humor do mercado, mas não elimina os riscos operacionais do banco. Os próximos resultados devem indicar se a inadimplência, especialmente no agronegócio, começou a se estabilizar e se as provisões deixarão de pressionar o lucro.

Também será necessário acompanhar novas pesquisas eleitorais, a trajetória da Selic e a execução das renegociações de crédito. Esses fatores podem alterar rapidamente a percepção sobre BBAS3, cuja recuperação ainda é considerada um processo longo, e não uma reversão já consolidada.