Uma avalanche de gelo originada em uma geleira de alta altitude pode ter desencadeado as enchentes fatais que atingiram o Nepal nesta quarta-feira (26), segundo uma avaliação preliminar de imagens de satélite, registros sísmicos e informações sobre a região. A hipótese é que um bloco de aproximadamente 600 metros de largura tenha despencado por cerca de 1.200 metros, transformando-se em uma mistura de gelo e água que avançou pelo vale e atingiu o rio Bhotekoshi, na fronteira com o Tibete.

Como a geleira pode ter gerado a onda de água

O geólogo Daniel Shugar, da Universidade de Calgary, afirmou que uma geleira parece ter se rompido de maneira abrupta, liberando uma grande massa que caiu de uma altitude estimada em 5.180 metros. A queda teria lançado o material por mais de um quilômetro em linha vertical até o fundo do vale.

De acordo com o glaciologista Simon Cook, da Universidade de Dundee, o gelo acumulava grande energia potencial por estar armazenado em uma área elevada. Durante a queda, a força do impacto teria fragmentado o bloco e transformado parte dele em água, produzindo um fluxo rápido e destrutivo. Depósitos espalhados no local seriam compatíveis com esse tipo de avalanche.

O que as imagens e os sensores indicam

Os pesquisadores identificaram, nas imagens de satélite, o desaparecimento rápido da cobertura de neve no dia anterior ao desastre. O sinal pode indicar temperaturas mais elevadas, que teriam acelerado o derretimento e enfraquecido a geleira, embora ainda não seja possível determinar a causa exata do rompimento.

Sensores sísmicos registraram o deslocamento repentino de uma grande massa por volta das 8h40 no horário local. Na sequência, apareceu um sinal característico de fluxo de água. Para Kristen Cook, da Universidade Grenoble Alpes, os dados apontam mais provavelmente para uma avalanche de rocha e gelo que se transformou em uma corrente ao avançar rio abaixo do que para um terremoto convencional.

Terremoto pode ter causado ou acompanhado o deslizamento

O Serviço Geológico dos Estados Unidos registrou, aproximadamente no mesmo horário, tremores de magnitude 4,4 na região. Os cientistas ainda investigam se o abalo provocou o deslizamento, se foi gerado pelo próprio deslocamento da massa ou se os dois eventos ocorreram simultaneamente sem relação direta.

William Barnhart, do programa de perigos sísmicos do órgão americano, afirmou que as três possibilidades continuam abertas. Por isso, a avalanche de gelo é tratada como a explicação mais provável até agora, mas não como uma conclusão definitiva sobre a origem da enchente.

Centenas continuam desaparecidas no Nepal e no Tibete

As águas avançaram pelos vales fluviais na manhã de quarta-feira, destruindo vilarejos e atingindo rotas usadas por turistas e praticantes de trekking. Centenas de pessoas permanecem desaparecidas no Nepal e no Tibete, território administrado pela China, incluindo quase 400 turistas estrangeiros procurados por autoridades de países como Estados Unidos, Reino Unido e Índia.

O episódio também reacende o alerta sobre a vulnerabilidade do Himalaia. A cadeia de montanhas está aquecendo rapidamente, e o derretimento das geleiras pode ampliar os riscos de avalanches, deslizamentos e inundações provocadas pela liberação repentina de grandes volumes de água.

O que ainda precisa ser confirmado

As equipes científicas ainda precisam combinar novas imagens de satélite, dados meteorológicos e registros sísmicos para reconstruir a sequência dos acontecimentos. Também será necessário determinar se o aumento das temperaturas teve papel decisivo ou apenas contribuiu para fragilizar a geleira.

Para quem investe, trabalha ou consome no Brasil, o material disponível não aponta efeito direto sobre juros, inflação, empresas ou ativos brasileiros. O próximo passo é a confirmação da causa do desastre e a definição da extensão dos danos humanos e materiais no Nepal e no Tibete.