A temporada de balanços do segundo trimestre de 2026 trouxe direções opostas para duas empresas de consumo e varejo. Enquanto a Allos (ALOS3), administradora de shopping centers, entregou números acima do esperado e viu suas ações operarem em leve alta, o Magazine Luiza (MGLU3) amargou queda de mais de 5% na Bolsa, pressionado pela contínua fraqueza do e-commerce. Os resultados, divulgados na véspera, mostram como setores distintos estão lidando com o cenário macroeconômico ainda desafiador.
Allos: receita e Ebitda acima das projeções
A Allos reportou lucro líquido de R$ 294 milhões no segundo trimestre, alta de 57,7% na comparação anual. A receita líquida avançou 11,6%, para R$ 732,3 milhões, enquanto o Ebitda ajustado ficou em R$ 525,4 milhões, crescimento de 10,5% ante o mesmo período de 2025. Esses números ficaram ligeiramente acima da média das projeções de analistas, que esperavam receita de R$ 708,4 milhões e Ebitda de R$ 533,7 milhões.
Parte da surpresa positiva veio da venda de um terreno, que adicionou cerca de R$ 15 milhões à receita do trimestre. Mesmo sem esse efeito, o resultado teria permanecido positivo, segundo avaliação de bancos. A companhia também se beneficiou do crescimento de 40% na receita de serviços, puxado pela operação de mídia da Helloo, e do avanço de 6,2% na receita de estacionamento, que somou R$ 133 milhões.
Impacto do Shopping Tijuca e indicadores operacionais
O incêndio no Shopping Tijuca, ocorrido em janeiro, ainda pressionou os custos imobiliários, que subiram 37% na comparação anual, com maiores provisões relacionadas ao empreendimento. Com isso, a margem NOI (resultado operacional dos shoppings) caiu 1,5 ponto percentual, para 91,8%. Mesmo assim, o NOI total cresceu 3,7%, para R$ 601 milhões.
Operacionalmente, as vendas nos shoppings somaram R$ 10,5 bilhões no trimestre, alta de 3,4%. O crescimento das vendas nas mesmas lojas (SSR) ficou em 3,2%, e as vendas por metro quadrado subiram 4%. Para o Safra, o desempenho foi “acima das expectativas”, com controle de despesas compensando o impacto do Tijuca.
Magazine Luiza: e-commerce derruba ações
O Magazine Luiza apresentou um retrato diferente. As ações caíam 5,91% por volta das 11h10, após a divulgação do balanço. O GMV online caiu 12% na comparação anual, enquanto o GMV consolidado recuou 5%. A fraqueza do digital foi o principal motivo apontado por analistas, que destacaram a concorrência acirrada e o ambiente macroeconômico adverso.
Em contrapartida, as lojas físicas tiveram crescimento de 9,7% nas vendas mesmas lojas, impulsionado por televisores e produtos ligados à Copa do Mundo. A margem Ebitda ficou estável em 8%, e a Luizacred contribuiu positivamente, com melhora dos indicadores de crédito. O Ebitda ajustado superou as expectativas, mas o prejuízo líquido ajustado veio pior que o previsto e a geração de caixa foi considerada fraca pelo JPMorgan.
Reações divergentes dos bancos
O BTG Pactual manteve recomendação de compra para a Allos, citando combinação atrativa de dividendos e potencial de valorização. O banco estima um dividend yield de cerca de 13% ao ano e destacou o FFO por ação de R$ 0,66, alta de 14% com 9% acima da estimativa. O Safra também manteve recomendação equivalente à compra, com projeção de 12,9% de dividend yield até o fim de 2026.
Para o Magazine Luiza, as visões se dividem: o JPMorgan manteve recomendação de venda (underweight) e o BTG vê oportunidade de compra, ressaltando a estratégia de foco em rentabilidade. A XP classificou os números como “fracos, mas em linha” e manteve recomendação neutra, apontando a parceria com a Amazon no 1P e a migração de CDC para a Magalupay como potenciais gatilhos de melhora.
O que fica para o investidor
Os balanços mostram que a recuperação econômica ainda é desigual entre setores. A Allos demonstra resiliência operacional e capacidade de repasse, com fluxo de caixa forte que sustenta dividendos elevados. Já o Magazine Luiza enfrenta o desafio de reverter a queda das vendas online, apesar da força das lojas físicas e dos serviços financeiros. Para quem acompanha o mercado, a lição é acompanhar a evolução dos indicadores de cada empresa — especialmente a reação do e-commerce no caso da varejista e a normalização do Shopping Tijuca na Allos — antes de tomar qualquer decisão de alocação.
