A Empiricus Research projeta que um ajuste crível das contas públicas poderia levar o dólar de R$ 5,13 para R$ 4,65 e o Ibovespa dos cerca de 178 mil para até 225 mil pontos em um horizonte de 12 a 24 meses. A melhora começaria nos juros de mercado, avançaria sobre o câmbio e poderia provocar uma forte reprecificação dos ativos brasileiros.

Juros longos seriam os primeiros a reagir

No cenário central, a taxa do DI com vencimento em janeiro de 2031 cairia dos atuais 14,2% para uma faixa entre 11,7% e 12,4%. Isso representa uma redução de 1,8 a 2,5 pontos percentuais nos juros projetados para o futuro, antes mesmo de uma eventual queda mais expressiva da Selic definida pelo Banco Central.

O movimento seria concentrado nos prazos mais longos, em um processo conhecido como bull flattening: os juros futuros recuam, principalmente na ponta longa da curva, enquanto as taxas de curto prazo caem menos. Para o investidor, títulos prefixados e atrelados à inflação com vencimentos mais distantes poderiam se valorizar, porque seus preços sobem quando as taxas exigidas pelo mercado diminuem.

Como o ajuste fiscal chegaria ao dólar e à Bolsa

Contas públicas mais previsíveis reduzem o prêmio de risco exigido pelos investidores para manter recursos no Brasil. Com menor percepção de risco, aumentaria a demanda por ativos locais e poderia haver entrada de capital, contribuindo para a valorização do real. No cenário da Empiricus, o dólar recuaria aproximadamente 9,4%, de R$ 5,13 para R$ 4,65.

Na Bolsa, a combinação de juros menores, câmbio mais comportado e maior confiança poderia elevar o valor atribuído às empresas brasileiras. O intervalo projetado vai de 205 mil a 225 mil pontos para o Ibovespa, alta potencial de cerca de 15% a 26% em relação aos 178 mil pontos usados como referência no estudo.

O problema fiscal ainda limita a melhora

O setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 157,2 bilhões nos 12 meses encerrados em junho, equivalente a 1,19% do PIB. Quando os juros da dívida entram na conta, o déficit nominal chegou a R$ 1,32 trilhão, ou 9,99% do PIB, enquanto a dívida bruta alcançou R$ 10,8 trilhões, equivalentes a 81,9% do PIB.

A avaliação é que não existe uma crise imediata de financiamento: o Tesouro mantém reserva, a maior parte da dívida está em reais e o mercado doméstico continua absorvendo títulos públicos. O desafio é produzir resultado suficiente para estabilizar a dívida, e não apenas garantir a capacidade de refinanciá-la.

Por que cumprir a meta pode não ser suficiente

Para 2026, o Governo Central estima déficit efetivo próximo de R$ 52 bilhões. Entretanto, aproximadamente R$ 62,8 bilhões em despesas podem ser retirados do cálculo oficial da meta fiscal. Com essas deduções, o resultado considerado para a regra passa a um superávit de cerca de R$ 10,8 bilhões.

Para a trajetória da dívida, porém, importa o resultado efetivo. A Empiricus estima que o país precisaria sair de um déficit primário de aproximadamente 1,2% do PIB para um superávit recorrente entre 1,5% e 2% do PIB. Receitas extraordinárias ou aumentos pontuais de impostos, isoladamente, não seriam suficientes para convencer o mercado de que a melhora é permanente.

O que observar nos investimentos e na economia

O desenho do ajuste será decisivo. A análise aponta a necessidade de desacelerar despesas obrigatórias, revisar indexações e benefícios, limitar exceções ao arcabouço fiscal e estabelecer metas verificáveis. Um programa percebido como temporário pode ter efeito limitado sobre juros, câmbio e Bolsa.

Para quem investe, o principal ponto é acompanhar a trajetória das taxas longas, as medidas fiscais e a reação do câmbio, sem confundir uma projeção com garantia de resultado. Para consumidores e empresas, juros menores reduziriam gradualmente o custo do crédito, enquanto um real mais forte poderia aliviar produtos importados. O próximo passo será verificar se o governo apresenta medidas capazes de transformar a promessa de ajuste em resultado fiscal efetivo.

Impacto para a sociedade

Um ajuste sustentável das contas públicas pode reduzir a pressão sobre os juros, barateando o crédito para famílias e empresas ao longo do tempo. A queda do dólar também tende a aliviar custos de produtos importados e alguns preços no mercado interno. Por outro lado, o ajuste pode envolver contenção de despesas, revisão de benefícios ou mudanças em impostos, com efeitos sobre o orçamento público e a atividade econômica.