Propostas mais claras para as contas públicas podem estimular novos aportes estrangeiros na bolsa brasileira, avalia Josias Bento, sócio da GT Capital. Na visão do especialista, se o próximo governo indicar como pretende conduzir o ajuste fiscal, o Ibovespa pode alcançar e permanecer na faixa dos 210 mil pontos até o fim de 2026. A avaliação coloca a política fiscal como fator decisivo para a continuidade da recente entrada de recursos externos.

Planos para as contas públicas são o fator decisivo

Até esta quarta-feira, 7 de outubro, nenhum dos dois candidatos à Presidência havia apresentado propostas oficiais sobre responsabilidade fiscal, segundo Bento. Para ele, a falta de detalhes mantém uma dúvida importante para investidores que avaliam aumentar a exposição ao Brasil: como o próximo governo pretende equilibrar receitas e despesas.

O especialista espera que informações mais concretas apareçam apenas depois do segundo turno. Até lá, a possibilidade de maior entrada de capital estrangeiro dependerá, em parte, de sinais sobre a condução das contas públicas. A avaliação não significa que o fluxo esteja garantido: o investidor ainda precisa julgar o conteúdo e a credibilidade das medidas anunciadas.

Por que o tema fiscal pode mexer com a bolsa

Quando investidores enxergam mais previsibilidade nas contas do governo, podem exigir uma compensação menor pelo risco de aplicar no país. Essa percepção pode favorecer ativos brasileiros e ampliar o interesse de estrangeiros por ações. No sentido contrário, dúvidas sobre a trajetória fiscal tendem a manter a incerteza e podem limitar novos aportes.

O mecanismo ajuda a entender por que Bento condiciona a projeção para o índice ao detalhamento do ajuste. A meta de 210 mil pontos é uma estimativa do sócio da GT Capital, não uma garantia de desempenho: ela depende das decisões futuras e da reação do mercado a elas.

Estrangeiros podem tratar a bolsa como operação de curto prazo

A entrada de quase R$ 10 bilhões de investidores estrangeiros na bolsa foi associada à alta de 7,7% do Ibovespa na segunda-feira, 5 de outubro. Depois do avanço, o índice acumulou leves perdas na terça-feira, 6, e nesta quarta-feira, 7. Bento atribui o recuo a uma realização de lucros, movimento em que investidores vendem ativos após uma valorização para concretizar ganhos.

Na leitura do especialista, estrangeiros podem encarar mercados emergentes como oportunidades de negociação de prazo mais curto, sem necessariamente assumir uma aposta duradoura. Isso ajuda a explicar por que a entrada de recursos pode ser seguida por saídas ou ajustes, mesmo quando o cenário doméstico parece favorável.

Juros e dólar também influenciam o desempenho das ações

As small caps, ações de empresas de menor valor de mercado, estavam entre as maiores altas do dia. Bento relaciona esse desempenho à maior sensibilidade dessas companhias aos juros: uma perspectiva de juros menores pode favorecer empresas cujo crescimento depende mais de crédito e de condições financeiras acessíveis. O movimento, porém, não elimina os riscos específicos de cada negócio.

Na outra ponta, a Embraer caía cerca de 4,8% e aparecia entre as maiores baixas. Bento citou a exposição ao dólar como fator de atenção para a companhia e para a Vale: quando a moeda americana recua com rapidez, empresas ligadas a receitas ou referências em dólar podem sentir o efeito em suas ações.

O que acompanhar até o fim do ano

Para quem investe, a projeção de alta do Ibovespa deve ser lida junto com a condição apontada por Bento: a apresentação de um plano fiscal que convença o mercado. O fluxo estrangeiro pode dar impulso às ações, mas também oscila, e o desempenho do índice não representa o resultado de todos os papéis.

O próximo ponto de atenção será a divulgação das propostas dos candidatos, esperada pelo especialista após o segundo turno. A partir daí, investidores poderão avaliar se há medidas concretas para as contas públicas e como o mercado reage. Para quem acompanha a bolsa, a combinação entre sinais fiscais, entrada de recursos externos e movimentos de curto prazo será central para entender se o avanço recente pode se sustentar.