O PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, mas a composição do resultado revela uma economia dependente do agro e do petróleo: a agropecuária avançou 2,8% ante o primeiro trimestre e a indústria extrativa teve alta de 3,4%, enquanto a indústria de transformação e a construção recuaram. O detalhe importa porque os setores mais ligados ao consumo e ao crédito perderam força sob juros elevados.

Agropecuária e petróleo concentram os ganhos do trimestre

Na comparação com o primeiro trimestre, a agropecuária cresceu 2,8%, a indústria avançou apenas 0,1% e os serviços subiram 0,2%. Dentro da indústria, a extração de petróleo e gás foi o principal destaque, também com alta de 3,4% no período.

O campo teve desempenho forte também na comparação anual. A agropecuária cresceu 6,8% ante o segundo trimestre de 2025, favorecida pela pecuária, por ganhos de produtividade e por safras relevantes. A produção estimada de soja aumentou 5,3%, enquanto a de café avançou 15,1% nessa base de comparação.

Indústria de transformação recua e expõe fraqueza interna

A indústria extrativa cresceu 12% ante o segundo trimestre de 2025, principalmente com o aumento da produção de petróleo e gás. No semestre, a alta acumulada do segmento chegou a 12,5%, ajudando a compensar a fraqueza de outras áreas industriais.

A indústria de transformação, porém, recuou 0,4% na comparação trimestral e 0,9% na anual. Construção caiu 0,4% no trimestre, enquanto eletricidade e gás, água, esgoto e gestão de resíduos recuaram 0,5% ante um ano antes. São atividades mais expostas ao custo do crédito e à demanda doméstica.

Juros altos reduzem consumo e atividade cíclica

Economistas avaliam que o avanço do PIB foi sustentado quase exclusivamente por setores menos sensíveis ao ciclo econômico, como agropecuária e extração mineral. Já o consumo das famílias ficou abaixo do esperado, em um sinal de perda de tração da demanda interna.

O mecanismo passa pelo crédito: taxas elevadas aumentam o custo de financiamentos, comprometem uma parcela maior da renda com prestações e fazem consumidores adiarem compras de bens duráveis. Para as empresas, o encarecimento do capital reduz investimentos e estoques, afetando especialmente indústria, construção e comércio.

Serviços ainda crescem, mas também desaceleram

O setor de serviços teve alta de 0,2% no segundo trimestre ante o primeiro, mas sua expansão anual desacelerou de 2,1% no primeiro trimestre para 1,5% no segundo. O movimento reforça a avaliação de que a perda de dinamismo já alcança uma parte mais ampla da economia.

Houve exceções. O segmento de informação e comunicação avançou 2,1% no trimestre e 8,4% ante o segundo trimestre de 2025, impulsionado por atividades como telecomunicações e tecnologia da informação. Transporte, armazenagem e correio cresceram 1,1% no trimestre e 1,2% na comparação anual.

Projeções apontam segundo semestre mais fraco

Após o crescimento de 1,1% no primeiro trimestre, analistas passaram a projetar uma expansão mais modesta para os próximos períodos. O ASA reduziu a previsão para o PIB de 2026 de 2% para 1,8% e estima alta de 0,2% no terceiro trimestre. O Banco BV também prevê avanço de 0,2% no período e mantém projeção de 1,9% para o ano.

A XP atribuiu viés de baixa à estimativa de 2% para 2026 e projeta praticamente estagnação no segundo semestre. A casa espera três cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual na Selic, encerrando o ano em 13,25%, enquanto o Daycoval prevê crescimento de apenas 0,15% a 0,2% no segundo semestre. Para quem investe, trabalha ou consome, o próximo dado relevante será a evolução da demanda doméstica: ela determinará se a desaceleração ficará moderada ou se atingirá mais setores da economia.

Impacto para a sociedade

O resultado mostra que a economia ainda cresce, mas de forma concentrada e com perda de força em setores que geram consumo, empregos e investimentos. Juros elevados encarecem financiamentos e parcelas, reduzem a disposição das famílias para comprar e dificultam a atividade de empresas ligadas ao mercado interno. Uma desaceleração mais intensa também pode influenciar as próximas decisões sobre a Selic e o ritmo de criação de vagas.