A ausência de um ajuste fiscal estrutural pode levar os juros longos a até 17,5%, o dólar a R$ 6,65 e o Ibovespa a recuar para uma faixa entre 116 mil e 134 mil pontos, segundo um exercício de estresse da Empiricus Research. A casa também traçou estratégias para renda fixa, ações e câmbio em cenários eleitorais com ou sem controle das despesas públicas.

Por que as contas públicas pressionam os ativos

O alerta ocorre mesmo sem uma crise imediata de financiamento. Nos 12 meses até junho, o setor público acumulou déficit primário de R$ 157,2 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. Incluindo os juros nominais de R$ 1,16 trilhão, o déficit nominal chegou a R$ 1,32 trilhão, ou 9,99% do PIB. A dívida bruta alcançou R$ 10,8 trilhões, correspondentes a 81,9% do PIB.

Para a Empiricus, cumprir formalmente a meta fiscal não garante que a dívida esteja em trajetória sustentável, especialmente quando certas despesas ficam fora do cálculo. No primeiro semestre, a receita líquida do Governo Central cresceu 5,6% acima da inflação, mas as despesas avançaram 12,3%, pressionadas pelos gastos obrigatórios.

O esforço necessário para estabilizar a dívida

Estimativa da Instituição Fiscal Independente citada no relatório indica que, com crescimento real de 2,3% e juro real implícito de 5%, seria necessário um superávit primário recorrente de cerca de 2,1% do PIB para estabilizar a dívida. O resultado atual, porém, é um déficit de 1,19% do PIB em 12 meses, uma distância superior a 3 pontos percentuais.

Na avaliação da casa, contingenciamentos pontuais ou receitas extraordinárias dificilmente seriam suficientes. Sem mudanças permanentes nas despesas obrigatórias, investidores podem exigir uma remuneração maior para financiar o governo, elevando o chamado prêmio de risco e contaminando juros, câmbio, inflação e Bolsa.

Como seria o cenário de maior estresse

No cenário severo, com déficits persistentes, ausência de revisão estrutural dos gastos e dívida próxima de 95% do PIB, o contrato de DI janeiro de 2031 poderia subir para entre 16,5% e 17,5%. Esse título é usado como referência para juros futuros; quando suas taxas avançam, os preços de prefixados e de papéis indexados à inflação tendem a cair.

O dólar poderia alcançar R$ 6,15 a R$ 6,65, enquanto o Ibovespa ficaria entre 116 mil e 134 mil pontos. A Empiricus ressalta que esses números são um exercício de estresse, não uma previsão. Em um cenário adverso, mas menos grave, a dívida se aproximaria de 90% do PIB, o dólar ficaria entre R$ 5,65 e R$ 5,90 e a Bolsa poderia cair de 15% a 20%, para 142 mil a 151 mil pontos.

O que muda com ou sem ajuste após as eleições

Com um programa crível de controle de gastos, respeito ao arcabouço fiscal e reformas estruturais, a redução do risco poderia começar pelos juros longos, avançar para o câmbio e depois favorecer a Bolsa. A percepção de uma dívida sustentável também ajudaria a manter as expectativas de inflação ancoradas e abriria espaço para cortes da Selic, hoje em 14% ao ano.

Nesse ambiente, a casa cita títulos IPCA+ longos, setores domésticos sensíveis aos juros menores, fundos imobiliários e empresas ligadas à retomada da atividade. Entre os ativos mencionados estão PACB11, RALM11, CGOSA2, SMFT3, B3SA3, CYRE3, RENT3, SMAB11, VISC11, BTLG11 e KNHF11. A reação positiva, porém, dependeria da confirmação e da execução do ajuste anunciado.

Como proteger a carteira em um ambiente de deterioração

Sem ajuste, a prioridade indicada pela Empiricus é preservar capital e poder de compra, reduzindo a dependência do risco doméstico. A casa menciona ativos internacionais, exposição cambial, ouro, crédito de emissores resilientes e instrumentos de proteção contra a alta dos juros e a queda da Bolsa.

O mecanismo de transmissão tende a ocorrer em sequência: juros longos maiores derrubam o preço de títulos sensíveis à marcação a mercado; o real mais fraco pressiona a inflação; e o Banco Central pode manter a Selic elevada por mais tempo. Na Bolsa, empresas endividadas, varejistas, construtoras e companhias menores ficam mais expostas ao crédito caro. O próximo passo será observar os compromissos fiscais dos candidatos e se eles se transformam em medidas permanentes após as eleições.

Impacto para a sociedade

A piora das contas públicas pode manter os juros altos, encarecendo financiamentos, empréstimos e o custo das empresas. Se o real perder valor, produtos importados e alguns preços domésticos podem subir, pressionando a inflação e reduzindo o poder de compra. O espaço para investimentos públicos e para novos cortes de juros também pode diminuir.