As ações do Banco do Brasil (BBAS3) operam entre as maiores quedas do Ibovespa nesta quinta-feira (13), recuando até 2,11%, a R$ 18,60, apesar de o banco ter apresentado lucro acima das expectativas no segundo trimestre de 2026. Por volta das 11h40, os papéis caíam 1,37%, a R$ 18,74, em uma reação que concentra as preocupações do mercado na piora da qualidade do crédito, e não apenas no resultado final.
Lucro do Banco do Brasil supera projeções
O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões entre abril e junho. O valor representa alta de 3,3% na comparação com o segundo trimestre de 2025 e avanço de 13,9% ante os R$ 3,4 bilhões registrados no primeiro trimestre de 2026. O resultado também ficou 4% acima da estimativa do Safra e superou o consenso da Bloomberg, de R$ 3,5 bilhões.
O ROE, indicador que mede quanto o banco gera de retorno sobre o patrimônio dos acionistas, subiu 1,07 ponto percentual no trimestre, para 8,4%. Ainda assim, permaneceu abaixo dos 20% vistos pelo mercado como referência para uma rentabilidade elevada e ficou distante dos níveis de concorrentes privados: Itaú, com 24%, e Bradesco, com 16,1%.
Inadimplência pesa mais que o lucro no pregão
Para os investidores, a principal preocupação está na deterioração dos ativos. A inadimplência acima de 90 dias em cartões de crédito dobrou e chegou a 14,6%. Esse indicador mostra a parcela de operações com atraso prolongado, que apresenta maior probabilidade de resultar em calote e exige maior atenção nas provisões do banco.
A formação de inadimplência no segmento de varejo alcançou R$ 11,8 bilhões no trimestre. Na avaliação do Safra, a surpresa positiva do lucro foi de baixa qualidade e menos importante do que os sinais de piora no risco da carteira. O Bradesco BBI também afirmou que ainda não há sinais claros de estabilização das métricas de crédito.
Provisões reduzem a qualidade do resultado
Quando a inadimplência aumenta, os bancos precisam separar mais recursos para cobrir possíveis perdas. Essas provisões para devedores duvidosos funcionam como uma reserva contábil para créditos que podem não ser pagos. Mesmo que o lucro trimestral permaneça positivo, uma alta persistente dos calotes pode limitar os resultados futuros e pressionar a rentabilidade.
No Banco do Brasil, o quadro também é influenciado pela inadimplência no agronegócio. O banco acumula seis trimestres consecutivos de deterioração relacionada à falta de pagamento de produtores. Além disso, a resolução CMN nº 4.966/2021 endureceu as regras de reconhecimento e provisão de perdas, obrigando as instituições a refletirem o risco de crédito com mais antecedência.
Reação negativa já era esperada por analistas
A leitura mais cautelosa ajuda a explicar por que as ações caem mesmo com o lucro acima das projeções. Por volta das 11h40, BBAS3 movimentava R$ 358,5 milhões em 19,9 mil negócios na B3, enquanto a pressão sobre o papel também contaminava o desempenho do setor bancário no pregão.
O mercado vinha tratando o Banco do Brasil como um ativo mais defensivo, ou um “porto seguro” da Bolsa. A sequência de piora na carteira agropecuária e o aumento das provisões, porém, reduziu essa percepção. A queda das ações reflete justamente a dúvida sobre a capacidade de o banco recuperar a qualidade dos ativos nos próximos trimestres.
O que acompanhar nos próximos trimestres
Para quem investe, o ponto central não é apenas o lucro de R$ 3,9 bilhões, mas a evolução dos atrasos, da cobertura das perdas e do retorno sobre o patrimônio. Uma melhora nesses indicadores poderia reduzir a percepção de risco; já uma nova deterioração tende a exigir mais provisões e limitar a rentabilidade.
O banco também aprovou R$ 584,9 milhões em juros sobre o capital próprio (JCP), forma de remuneração aos acionistas. A distribuição, contudo, não elimina as dúvidas sobre o desempenho operacional. A próxima reação do mercado dependerá dos sinais de estabilização da inadimplência, especialmente no varejo, nos cartões e no agronegócio.
