A aversão ao risco e a retirada de investidores estrangeiros fizeram o Ibovespa cair 2,5% nesta terça-feira (12), aos 167 mil pontos, devolvendo o índice aos níveis de janeiro. O movimento mostra que o mercado voltou a cobrar um prêmio maior para manter recursos no Brasil, em meio à incerteza sobre a eleição de outubro, a condução fiscal e o cenário para os juros.
Estrangeiros aceleram retirada da Bolsa brasileira
Os investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 5,5 bilhões da Bolsa na primeira semana de agosto. A saída, que já havia começado no início do mês, ganhou força depois que o JPMorgan reduziu sua recomendação para as ações brasileiras, de uma posição equivalente à compra para neutra.
O banco passou a apontar maior cautela com o Brasil por causa de três fatores: o ciclo de queda da Selic, a aproximação das eleições e a deterioração do crédito. Em julho, o índice MSCI Brasil havia subido 6,3%, superando os indicadores de ações da América Latina e de mercados emergentes. Agora, o JPMorgan avalia que o país pode ter desempenho inferior nos seis meses anteriores à eleição.
Outro sinal veio do EWZ, fundo negociado em Nova York que busca acompanhar o mercado acionário brasileiro. O ETF registrou na terça-feira o maior fluxo de saída em 13 anos, indicando que a redução de exposição não ficou restrita aos investidores locais.
Mercado precifica incerteza, não um vencedor
A eleição passou a fazer parte do cálculo de risco dos ativos brasileiros, mas isso não significa que a Bolsa já tenha definido quem vencerá. A leitura predominante é que os preços refletem a falta de clareza sobre o próximo governo e sobre sua agenda econômica, principalmente na área fiscal.
A pesquisa CNT/MDA divulgada na terça-feira mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente do senador Flávio Bolsonaro no primeiro turno, com vantagem de quase 14 pontos. Em uma simulação de segundo turno, a distância seria de cerca de 9 pontos. Para gestores, o resultado reforça um cenário-base de reeleição, embora qualquer mudança nesse quadro ainda possa provocar reação dos mercados.
“O que aparece nos preços neste momento é um prêmio crescente de incerteza, especialmente sobre a condução fiscal e econômica a partir de 2027”, afirmou Olívia de Brás, da Magno Investimentos. Na prática, o investidor não precisa antecipar o vencedor para reduzir posições: basta considerar que a indefinição pode trazer mais volatilidade.
Por que os juros também entram no radar
Além das ações, a piora atingiu a curva de juros, que reúne as taxas negociadas para diferentes prazos. Quando aumenta a dúvida sobre o equilíbrio das contas públicas, investidores costumam exigir juros maiores para financiar o governo no futuro. Isso eleva o custo de mercado para empresas e consumidores, mesmo quando a Selic está em trajetória de queda.
A redução da Selic tende a diminuir a remuneração de aplicações pós-fixadas e, em condições normais, pode estimular crédito e ações. Porém, se o risco fiscal e eleitoral cresce, parte desse efeito é neutralizada por taxas mais altas nos prazos longos. O investidor passa a exigir uma compensação maior para carregar ativos brasileiros.
O que pode mudar o comportamento dos ativos
Para Régis Chinchila, da Terra Investimentos, o mercado exige um prêmio maior diante da ausência de um planejamento fiscal convincente de médio e longo prazo. O estrangeiro estaria aguardando mais clareza sobre o compromisso do próximo governo com equilíbrio das contas, reformas e aumento da produtividade.
Assim, novos sinais sobre as pesquisas eleitorais, as propostas dos candidatos e a capacidade de controle das despesas públicas podem alterar a percepção de risco. O próprio JPMorgan observou que ações e real vêm oscilando dentro de uma faixa desde maio, o que indicaria que ainda há espaço para mudanças relevantes nos preços conforme o cenário fique mais definido.
O que vem a seguir para quem acompanha o mercado
O tom dos próximos pregões deve continuar condicionado à combinação entre fluxo estrangeiro, pesquisas eleitorais, expectativas para a Selic e notícias sobre a política fiscal. A queda de 2,5% não representa apenas um movimento isolado do índice: ela sinaliza uma mudança na disposição dos investidores de manter exposição ao Brasil.
Para quem investe, a principal implicação é a possibilidade de maior oscilação entre ações, juros e câmbio até a eleição. Para empresas e consumidores, a consequência indireta pode aparecer caso a percepção de risco mantenha pressionadas as taxas de financiamento. A decisão dos investidores, contudo, dependerá da evolução concreta das propostas e das contas públicas, e não apenas das pesquisas de intenção de voto.
