Alfredo Setubal, CEO da Itaúsa (ITSA4), holding que controla o Itaú (ITUB4), afirmou que o ambiente econômico brasileiro é “pouco propício” aos negócios e alertou para uma desaceleração ainda maior em 2027, com possibilidade de aumento da inadimplência e risco de uma recessão. A avaliação foi apresentada em teleconferência sobre os resultados do segundo trimestre da companhia.
Juros altos e endividamento reduzem o consumo
Segundo Setubal, a economia cresce lentamente enquanto as taxas de juros permanecem elevadas. Esse cenário encarece financiamentos, empréstimos e parcelamentos, compromete uma parcela maior da renda das famílias e reduz a capacidade de consumo. Para as empresas, o custo financeiro mais alto também dificulta investimentos e expansão.
O executivo afirmou que o consumo vem diminuindo bastante por causa do elevado endividamento das famílias. Mesmo com medidas de estímulo que, na avaliação apresentada, somaram cerca de R$ 200 bilhões no primeiro semestre de 2026, a Itaúsa não identifica sinais de evolução significativa da economia.
Inflação baixa por demanda fraca, mas ainda acima da meta
Setubal avaliou que a inflação tem recuado lentamente principalmente porque o consumo está fraco. Em outras palavras, a demanda menor reduz a pressão para que empresas repassem aumentos de preços, mas isso ocorre em um ambiente de perda de força da atividade econômica.
A inflação continua baixa para os padrões históricos brasileiros, mas permanece acima de 4,5%, apontado pelo executivo como o teto da banda acompanhada pelo Banco Central. Ao mesmo tempo, a guerra no Irã tem pressionado petróleo e energia, criando um risco externo que pode dificultar a queda dos preços mesmo com a demanda doméstica enfraquecida.
Eleições podem aumentar a instabilidade no segundo semestre
Outro fator de preocupação é o calendário eleitoral. Setubal disse que as eleições costumam gerar insegurança entre investidores e consumidores, que passam a avaliar possíveis mudanças na política econômica conforme os candidatos e suas propostas avançam.
Essa incerteza costuma aparecer primeiro nos juros futuros, que refletem as apostas do mercado para as próximas decisões do Banco Central e para a trajetória das contas públicas. Quando essas taxas sobem, o crédito tende a ficar mais caro e os preços dos ativos de risco, como ações, podem sofrer pressão.
Mercado já demonstra maior cautela com o Brasil
As declarações ocorrem após um movimento de piora no sentimento em relação ao país. Na terça-feira, o Ibovespa caiu mais de 2%, enquanto o JPMorgan reduziu sua visão otimista para o mercado brasileiro. A combinação de juros altos, atividade mais fraca, eleições e riscos externos elevou a percepção de incerteza.
Para Setubal, a desaceleração não deve ficar restrita ao segundo semestre de 2026. “O ano que vem promete uma economia ainda mais desacelerada, a princípio, pelos números que vemos hoje”, afirmou. Nesse ambiente, o CEO também vê possibilidade de aumento dos atrasos nos pagamentos tanto no Itaú quanto entre clientes das demais empresas do conglomerado.
Resultado da Itaúsa mostra resiliência, mas exige cautela
Apesar do alerta macroeconômico, a Itaúsa encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 4,3 bilhões, alta de 7% em relação ao mesmo período de 2025. Setubal afirmou que o portfólio da holding é resiliente e formado por empresas bem administradas, capazes de apresentar bons resultados mesmo em condições mais difíceis.
Para quem investe, consome ou trabalha, o principal ponto é acompanhar a evolução dos juros, da inflação, do endividamento e das expectativas para as eleições. A combinação desses fatores definirá se a desaceleração ficará limitada a um crescimento mais fraco ou se poderá evoluir para uma recessão, além de influenciar o custo do crédito, a atividade das empresas e o desempenho da bolsa.
Impacto para a sociedade
Juros elevados e consumo mais fraco podem encarecer o crédito, reduzir as compras das famílias e dificultar a expansão das empresas, com possíveis efeitos sobre contratações e renda. A pressão sobre os preços de energia também pode aumentar o custo de combustíveis, eletricidade e outros produtos, enquanto as eleições tendem a ampliar a incerteza econômica.
