Após dois meses seguidos de saída expressiva, o capital estrangeiro voltou a fluir para a Bolsa brasileira em julho. A B3 registrou entrada líquida de R$ 2,558 bilhões no mês, elevando o saldo acumulado em 2026 para R$ 36,406 bilhões — montante 81% maior que o registrado no mesmo período do ano passado. O movimento foi puxado pela alta do petróleo, pelo alívio nas curvas de juros e pela rotação global de portfólios para fora do setor de tecnologia. Mas a expectativa é que o ritmo perca força no segundo semestre, com o cenário eleitoral e as incertezas externas entrando no radar.

O que trouxe o capital estrangeiro de volta

O saldo positivo de julho interrompeu uma sequência de resgates que vinha pesando sobre o Ibovespa. O índice subiu 3,5% no mês, o primeiro ganho mensal desde fevereiro. O EWZ, principal fundo de índice de ações brasileiras negociado em Nova York, avançou 6,23% no mesmo período, sinalizando que o apetite externo não se restringiu ao mercado local.

Dois fatores globais ajudaram a explicar a mudança. O primeiro foi a escalada das tensões no Oriente Médio, que elevou os preços do petróleo e beneficiou países exportadores da commodity, como o Brasil. O segundo foi o movimento de realocação de investidores que saíram das ações de tecnologia, com receio de uma bolha no segmento de inteligência artificial, e buscaram mercados considerados mais baratos e menos correlacionados a esse tema.

Petróleo e o efeito sobre as ações brasileiras

A valorização do barril teve impacto direto nas ações de produtores brasileiros. Na B3, os papéis da Petrobras subiram 17,4% (ON) e 14,9% (PN), enquanto a Prio avançou 16,7%. O movimento ajudou a reduzir o chamado risco-País, já que o petróleo tem peso relevante na pauta de exportações do Brasil.

“A forte valorização do petróleo ajudou a reduzir o risco-País devido ao peso da commodity na nossa pauta de exportação, e atraiu recursos para ações de produtores brasileiros”, afirma o CEO da Kosmos Capital Group, Marcelo Nantes. Segundo economistas, o Brasil é, em termos líquidos, um beneficiário de preços mais altos de energia, já que exporta mais do que importa.

O papel do corte da Selic e da inflação

No cenário doméstico, o mercado foi aquecido por sinais de arrefecimento da inflação. Na quarta-feira, 5, o Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,25% para 14%. A decisão veio acompanhada da expectativa de novos cortes, após o IPCA-15 de julho vir abaixo do esperado.

O impacto de juros mais baixos na Bolsa é duplo. Por um lado, reduz a atratividade da renda fixa, que passa a oferecer retornos menores em comparação com o risco das ações. Por outro, alivia o custo do crédito para empresas e consumidores, o que tende a melhorar a projeção de lucros. O Itaú BBA, por exemplo, passou a esperar a Selic ao fim do ciclo de cortes em 13,75%, ante previsão anterior de 14%.

Por que o fluxo deve perder força no segundo semestre

Apesar do resultado de julho, a leitura predominante entre gestores e analistas é de que o movimento foi mais uma realocação tática do que uma mudança estrutural. “Este movimento foi fruto de uma realocação global para portfólios emergentes, não necessariamente uma melhora estrutural do Brasil”, diz o head de Alocação da InvestSmart XP, Daniel Nogueira.

A escalada no conflito entre Israel e Irã, ao mesmo tempo que beneficiou o petróleo, também trouxe riscos: pode realimentar a inflação global e levar os bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa a manter juros altos por mais tempo, tornando a renda fixa dos países desenvolvidos mais atraente. Além disso, o cenário eleitoral brasileiro adiciona incerteza fiscal, que tende a deixar o investidor estrangeiro mais cauteloso.

“Ainda há apetite de investidor estrangeiro no Brasil, mas, para ter consistência, algumas incertezas precisam diminuir, como as relacionadas ao conflito no Oriente Médio”, afirma o estrategista da S4 Consultoria, Bruno Takeo. “A dúvida sobre o mercado de tech nos Estados Unidos também ajuda a atrair recursos para cá”, completa.

O que fica para quem acompanha o mercado

Para o investidor, o saldo positivo de julho confirma que o Brasil segue no radar dos estrangeiros, principalmente diante de uma Bolsa negociada a múltiplos considerados baixos e com exposição a setores como petróleo e commodities. No entanto, o segundo semestre tende a ser mais volátil, com o fluxo externo dependente de desdobramentos eleitorais, do conflito no Oriente Médio e do comportamento dos juros globais.

O corte da Selic e a desaceleração da inflação são fatores que reforçam a narrativa de melhora para ativos domésticos, mas a cautela deve predominar. A reversão do fluxo estrangeiro pode ser rápida, como ocorreu em maio e junho, quando saídas substanciais pressionaram o Ibovespa. Acompanhar de perto os próximos dados de inflação, as reuniões do Copom e o cenário externo será essencial para calibrar expectativas nos próximos meses.