O Itaú BBA reforçou a recomendação de compra para ações brasileiras e calcula que o Ibovespa pode chegar a 246 mil pontos se houver reformas fiscais mais profundas. O banco também apontou quatro empresas que ficaram para trás em relação ao índice em 2026: Equatorial, Rede D’Or, Localiza e Sabesp. A avaliação dá continuidade ao rali recente, mas ressalta que o potencial de alta depende do cenário fiscal e vem acompanhado de riscos.
Projeção de 246 mil pontos depende de reformas
Na simulação do banco, o Ibovespa estava em 206 mil pontos no fechamento de 5 de outubro, após subir 7,7% em reais naquele pregão. A estimativa de 246 mil pontos considera um cenário de reformas fiscais mais profundas e corresponde a uma valorização potencial a partir daquele fechamento, não a uma previsão garantida. Nesse quadro, o múltiplo preço sobre lucro (P/L) do índice poderia alcançar 11,5 vezes, ante 9,6 vezes na referência atual usada na análise.
O exercício considera quatro possibilidades para as contas públicas: continuidade da tendência atual de gastos, manutenção do arcabouço fiscal, reformas de maior alcance e reformas ainda mais profundas. Conforme o cenário, os juros reais poderiam variar de 8,5% a 5%, ante cerca de 6,5% a 7% na ocasião. Mantidas as demais condições, o P/L do Ibovespa iria de 7,3 a 11,5 vezes. Como referência histórica, o indicador oscilou de 6,5 vezes em 2022 a 14 vezes entre 2019 e 2020.
Expectativas fiscais influenciaram o rali
A análise foi feita após o avanço da bolsa em 5 de outubro, chamado de “Flávio Day” pelo mercado. Naquele dia, o Ibovespa subiu 7,7%. A reação refletiu a leitura de investidores sobre o resultado do primeiro turno e as perspectivas para a disputa presidencial, com segundo turno marcado para 25 de outubro.
Na percepção de parte do mercado descrita pelo banco, Flávio Bolsonaro era visto como mais propenso a priorizar o ajuste das contas públicas, embora seus planos para a área ainda não estivessem claros. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentava desconfiança de uma parcela relevante dos investidores. O BBA avalia que os preços passaram a ser compatíveis com um ajuste fiscal gradual e juros reais de 6,5% nas NTN-Bs, títulos públicos corrigidos pela inflação.
Equatorial, Rede D’Or, Localiza e Sabesp ficaram para trás
Mesmo depois da alta do índice, o banco identificou empresas com fundamentos considerados sólidos e avaliações atrativas que ainda tinham desempenho acumulado no ano inferior ao do Ibovespa. São elas Equatorial (EQTL3), Rede D’Or (RDOR3), Localiza (RENT3) e Sabesp (SBSP3), todas também presentes na carteira recomendada do BBA. A indicação de que estão “atrasadas” descreve seu desempenho relativo; não significa que a recuperação esteja assegurada.
Na sessão de 5 de outubro, ações financeiras responderam por 48,1% dos pontos ganhos pelo Ibovespa, enquanto utilities contribuíram com 20% e energia, com 13,8%. Juntos, os três grupos representaram 82% da contribuição positiva. Itaú, B3, Petrobras, BTG Pactual e Bradesco foram os papéis com maior contribuição individual, somando 46% dos pontos ganhos pelo índice.
Risco e retorno ficaram menos favoráveis
Apesar do potencial calculado no cenário otimista, o BBA observou que a relação entre risco e retorno se tornou menos atrativa depois da valorização: a razão entre os cenários mais otimista e mais pessimista ficou em 0,8 vez. O banco também avaliou que a renda fixa parecia precificar um quadro mais favorável que as ações, ao comparar títulos brasileiros indexados à inflação com títulos americanos protegidos da inflação.
O que observar daqui para frente
Para o banco, um ambiente doméstico mais favorável, mas ainda desafiador no exterior, pede equilíbrio entre empresas de dividendos, companhias domésticas de qualidade e negócios com receitas em dólar. Entre as preferências estão infraestrutura e serviços públicos, como energia e saneamento; ações de shopping centers, mais sensíveis à queda dos juros; instituições financeiras, setor imobiliário e empresas de saúde. “Bond proxies” são ações que podem ter comportamento semelhante ao de títulos, por sua previsibilidade de receitas e sensibilidade aos juros.
Para quem acompanha a bolsa, a projeção de 246 mil pontos deve ser lida como um cenário condicionado, não como resultado certo. A concretização de reformas fiscais, a evolução dos juros e os próximos passos da disputa eleitoral estão entre os fatores que podem alterar as expectativas usadas na conta. O próprio banco destaca que o espaço para valorização precisa ser ponderado junto ao risco maior após o rali.
