Após rebaixar sua avaliação do Brasil em meados de agosto, o JPMorgan voltou a recomendar exposição acima da média às ações brasileiras depois do primeiro turno das eleições, realizado no domingo (4). A mudança importa porque o banco vê espaço para uma valorização maior da Bolsa do país do que a de outros mercados latino-americanos: estima alta de cerca de 12% para o índice MSCI Brazil no curtíssimo prazo, com potencial de avanço acumulado de 20% mais adiante.

Resultado eleitoral mudou a relação entre risco e retorno

A recomendação passou de neutra para overweight, expressão usada pelo mercado para indicar uma exposição acima da média e equivalente, nesse caso, a uma visão de compra. Para os estrategistas, o resultado do primeiro turno alterou a percepção de risco o suficiente para justificar a volta ao posicionamento mais otimista.

O banco, porém, não considera que os desafios econômicos tenham desaparecido. O relatório cita a desaceleração do crescimento brasileiro, a pressão sobre as perspectivas de lucro das empresas e um ambiente internacional ainda adverso. Essas preocupações estavam entre os motivos para o rebaixamento de agosto, junto à incerteza eleitoral e à falta de clareza sobre novos cortes de juros.

Queda do dólar pode abrir espaço para cortes da Selic

Um dos caminhos para uma melhora adicional passa pelo câmbio. Na avaliação do JPMorgan, a valorização do real poderia contribuir para reduzir pressões sobre os preços e abrir espaço para cortes da Selic, a taxa básica de juros. O banco observa que o corte feito pelo Copom em setembro ocorreu antes do que previa e afirma que um novo movimento em novembro está em discussão.

Juros menores podem reduzir o retorno oferecido por aplicações de renda fixa atreladas às taxas de mercado e baratear empréstimos e financiamentos. Para as empresas, o crédito mais barato também pode diminuir custos e favorecer investimentos. Na Bolsa, a perspectiva de juros menores tende a beneficiar especialmente ações de companhias cujo valor depende mais de financiamento ou de ganhos esperados no futuro. O relatório aponta esses papéis como os preferidos na estratégia atual, sem que isso represente garantia de desempenho.

Reprecificação pode elevar múltiplos das ações

O segundo canal é a redução da percepção de risco, que poderia levar investidores a aceitar pagar mais pelas empresas brasileiras. O JPMorgan calcula que o mercado negocia atualmente a 8,9 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, patamar próximo da média do segundo quartil dos últimos dez anos. Essa relação compara o valor de mercado das empresas com o lucro esperado.

Se o risco percebido cair, o múltiplo poderia chegar a cerca de 10,9 vezes, nível correspondente ao terceiro quartil da série histórica. O banco estima que pelo menos metade dessa reprecificação poderia ocorrer no curtíssimo prazo, movimento que sustenta a projeção inicial de alta de aproximadamente 12% para o MSCI Brazil. Em um cenário mais favorável, com entendimento político e reformas estruturais, a avaliação poderia chegar a 13 vezes o lucro esperado.

Quais setores e empresas estão entre os destaques

Entre as instituições financeiras, o estrategista Yuri Fernandes prefere empresas ligadas ao mercado de capitais, como BTG Pactual e XP. O relatório também aponta que bancos digitais, como Nubank e Inter, e empresas de meios de pagamento podem ter semanas favoráveis. As seguradoras aparecem entre os segmentos menos favorecidos nessa estratégia.

Em construção, Marcelo Motta destaca Cyrela e Eztec, voltadas ao público de alta renda. As recomendações das duas empresas foram elevadas para acima da média em um relatório separado divulgado nesta segunda-feira (5). No setor de transportes, Guilherme Mendes menciona Localiza, Movida e Vamos entre os nomes em destaque.

O que pode limitar a alta e o que acompanhar

O cenário mais otimista depende de condições que ainda precisam se confirmar. Para chegar a múltiplos próximos de 13 vezes o lucro esperado, o banco considera necessário haver entendimento político e avanço de reformas, além de um ambiente externo favorável. Entre os fatores citados estão um Federal Reserve mais disposto a reduzir juros e estabilidade do índice DXY, que mede o dólar frente a uma cesta de moedas.

Para quem acompanha o mercado, a mudança do JPMorgan é uma nova leitura sobre o risco e o potencial da Bolsa brasileira, não uma previsão certa de alta. Os próximos sinais relevantes incluem a evolução do câmbio, as decisões do Copom e a capacidade de transformar o cenário político em medidas econômicas. A perspectiva de juros menores pode favorecer alguns setores, mas também depende da inflação e das condições externas; por isso, as estimativas do banco permanecem sujeitas a mudanças.