A crise no Supremo Tribunal Federal (STF), exposta pelo caso do Banco Master, aprofundou as divisões entre ministros e passou a interferir na disputa eleitoral. Com decisões sobre temas políticos sendo contestadas ou revertidas dentro da própria Corte, a atenção se afastou das propostas dos candidatos e se voltou para os conflitos no Judiciário, num cenário que pode aumentar a indefinição e o desânimo do eleitorado.

Decisões em sequência expõem o racha no Supremo

Na semana anterior ao primeiro turno, um episódio envolvendo publicações sobre Nossa Senhora Aparecida mostrou como decisões sucessivas podem alterar o rumo de um tema eleitoral. André Mendonça determinou a suspensão de postagens que associavam Flávio Bolsonaro (PL) a um projeto para retirar da santa o título de padroeira do Brasil. Dois dias depois, Flávio Dino liberou as publicações, mas Luiz Fux derrubou essa decisão.

Na sequência, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, levou o assunto à pauta do plenário virtual. O vai-e-vem ocorreu após outros embates em torno das investigações do Banco Master e da destituição e reintegração de Andrei Rodrigues no comando da Polícia Federal, intervalo que durou 24 horas. A série de episódios tornou pública a disputa entre ministros e ampliou a incerteza sobre os próximos desdobramentos.

Campanhas passam a reagir a fatos fora de seu controle

O conflito judicial também teve reflexos na agenda das campanhas. Decisões do STF e do TSE foram apontadas como motivo para o cancelamento do último debate antes do primeiro turno, previsto para quinta-feira, 1º de outubro. Com Lula (PT) e Flávio ausentes de debates, o espaço para discutir propostas ficou ainda menor.

Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getulio Vargas, a crise do Master e do Supremo “sequestrou a agenda” da eleição. Em vez de organizar a comunicação em torno de programas e prioridades, as campanhas passaram a reagir a novidades, escândalos e revelações que não controlam. O resultado, segundo ele, é uma disputa mais voltada aos acontecimentos do que à apresentação de propostas.

Propostas perdem espaço e cresce a indefinição

Uma pesquisa Quaest divulgada no início de setembro indicou que 45% dos eleitores consideravam as propostas o critério mais importante para escolher o voto. Apesar disso, poucas propostas haviam sido discutidas entre os candidatos até o momento descrito. Teixeira avalia que muitos eleitores mal conhecem as posições dos presidenciáveis sobre temas que afetam seu cotidiano.

A ausência de discussão programática também pode contribuir para o desânimo, enquanto a disputa judicial toma o espaço da conversa eleitoral. As intenções de voto pouco oscilaram ao longo da campanha, mas Lula e Flávio alternaram posições na disputa pela liderança e pelo segundo turno, o que dificultou as projeções. Nesse ambiente, a falta de clareza sobre o que está em jogo se soma à incerteza sobre a própria eleição.

O que a crise pode significar para o eleitor

Teixeira aponta a indefinição como um dos principais efeitos da crise e considera possível um aumento das abstenções. Isso não significa que a participação vá necessariamente cair, mas indica que a sucessão de conflitos pode afastar parte do público do debate político. Com menos espaço para comparar propostas, o eleitor pode chegar à votação com menos elementos para avaliar as prioridades dos candidatos.

O próximo foco será acompanhar se os embates entre ministros continuarão a pautar a reta final da eleição e se os candidatos conseguirão retomar a discussão de seus programas. Por enquanto, a crise no STF se tornou um fator que as campanhas não controlam e que pode influenciar tanto a agenda pública quanto o grau de confiança e engajamento dos eleitores.