A perda de força do mercado de trabalho dos Estados Unidos diminuiu a pressão para que o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, volte a elevar os juros já em outubro. Em setembro, o país abriu 29 mil vagas, bem abaixo das 85 mil esperadas, e os salários avançaram menos do que o previsto. Os números reforçam, entre economistas e analistas, a possibilidade de manutenção da taxa na próxima reunião, embora a inflação ainda seja um motivo de cautela.
Vagas e salários vieram abaixo das projeções
O payroll, relatório mensal de emprego dos Estados Unidos, mostrou a criação de 29 mil postos de trabalho em setembro. O resultado ficou aquém tanto da expectativa de mercado, de 85 mil vagas, quanto do número registrado no mês anterior, que foi superior. A taxa de desemprego ficou praticamente estável em 4,2%.
Os salários também deram um sinal de desaceleração: subiram 0,1% no mês, ante projeção de 0,3%, e avançaram em ritmo menor do que no período anterior. Para o economista Leandro Padulla, do ASA, a combinação de emprego mais fraco com a inflação mais moderada observada recentemente favorece a manutenção dos juros em outubro.
Mercado reduziu aposta em alta em outubro
As probabilidades acompanhadas pela ferramenta FedWatch, do CME Group, mudaram expressivamente após os dados. O mercado passou a atribuir 81,7% de chance à manutenção da taxa, hoje entre 3,75% e 4% ao ano, e 18,3% à possibilidade de uma alta de 0,25 ponto percentual. Uma semana antes, as chances eram de 35,8% para manter os juros e 64,2% para elevá-los.
Felipe Mecchi, economista do C6 Bank, também avalia que o aumento do desemprego reduz a possibilidade de alta na reunião de outubro. Ainda assim, ele pondera que o mercado de trabalho americano continua forte e que a inflação permanece acima da meta do Fed. Por isso, a projeção mais provável do economista é de uma alta em dezembro, que levaria a taxa para a faixa entre 4% e 4,25%.
Inflação ainda limita o espaço para alívio
O emprego fraco pode reduzir a pressão sobre os preços porque, com menor demanda por trabalhadores, tende a haver menos impulso para aumentos salariais. Isso não elimina o risco inflacionário: o Fed precisa avaliar os dois lados, evitando que a inflação persista, mas também considerando os sinais de enfraquecimento da atividade e do emprego.
Na semana anterior, o índice de preços de gastos com consumo pessoal, conhecido como PCE e preferido pelo Fed para acompanhar a inflação, subiu 0,3% em agosto, abaixo do esperado. O dado reforça o argumento por uma pausa, mas não muda, por si só, a avaliação de que a inflação ainda está acima da meta.
Emprego também pesa no cenário político americano
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, observa que os números chegam antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Um aumento do desemprego e um resultado fraco na criação de vagas são sinais desfavoráveis para o governo de Donald Trump, na avaliação do estrategista.
Ele também cita a repercussão negativa da guerra e do conflito no Irã, que, segundo sua avaliação, não mostram perspectiva de cessar-fogo no curto prazo. Esses fatores compõem o ambiente político e econômico, mas a decisão do Fed dependerá da avaliação dos dados de inflação e emprego.
O que acompanhar até as próximas decisões
Para quem investe, trabalha ou consome, o principal ponto é que a fraqueza do emprego reduziu, mas não eliminou, a possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos. Uma taxa americana elevada pode tornar aplicações em dólar mais atraentes e influenciar o câmbio; uma pausa pode aliviar essa pressão, mas não garante queda do dólar nem mudança imediata nos preços no Brasil.
O próximo passo é observar como os dados seguintes de inflação e atividade alteram as expectativas para outubro e dezembro. Por enquanto, a leitura do mercado favorece a manutenção na próxima reunião, enquanto a possibilidade de alta no fim do ano segue no radar. A diferença entre esses cenários depende de os sinais de desaceleração do emprego continuarem e de a inflação permitir ao Fed interromper o aperto monetário.
Impacto para a sociedade
A decisão do Fed pode influenciar o dólar e as condições de financiamento no mundo, com reflexos possíveis no câmbio e nos preços de produtos importados no Brasil. Para trabalhadores e consumidores brasileiros, isso não significa uma mudança imediata nos juros ou nos preços, mas pode afetar o custo de vida se houver impacto sobre o dólar e a inflação.
