Os juros altos reduzem a eficácia das políticas industriais ao dificultar investimentos que poderiam elevar a produtividade e a competitividade, afirmou nesta quarta-feira (30) Fernando Pimentel, presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Para o dirigente, o país precisa de uma taxa compatível com o retorno dos negócios e de um programa de sustentabilidade fiscal.
Como os juros podem limitar os investimentos industriais
Em entrevista durante o Congresso Aço Brasil 2026, em São Paulo, Pimentel disse que a taxa atual é “impeditiva” para uma competitividade que exige investimentos em produtividade e qualidade. Na avaliação dele, mesmo as melhores políticas industriais perdem força quando o custo de financiar projetos é alto.
O mecanismo é direto: juros elevados encarecem empréstimos e aumentam o retorno que uma empresa precisa esperar de um projeto para que ele compense. Com isso, investimentos em máquinas, tecnologia e modernização podem ser adiados ou reduzidos. O efeito apontado por Pimentel é que incentivos e outras medidas de política industrial, sozinhos, têm menos capacidade de estimular mudanças nas empresas.
Taxa precisa ser compatível com o retorno dos negócios
Pimentel não defendeu apenas juros menores: afirmou que a taxa deve ser compatível com o retorno dos negócios. Na prática, isso significa que o custo de financiar uma iniciativa não pode tornar inviável um investimento que, de outra forma, ajudaria a empresa a produzir melhor ou competir em condições mais equilibradas.
O dirigente também cobrou um programa de sustentabilidade fiscal. A preocupação com as contas públicas se conecta ao debate sobre juros porque a confiança na capacidade do governo de administrar suas despesas influencia as condições financeiras do país. A declaração, porém, foi uma defesa de mudanças e não o anúncio de uma decisão sobre a taxa de juros.
Custo Brasil acrescenta R$ 1,7 trilhão por ano
Além dos juros, Pimentel citou o Custo Brasil como obstáculo à competitividade. De acordo com a edição mais recente do estudo de mensuração mencionada por ele, produzir no país custa R$ 1,7 trilhão a mais por ano do que na média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O valor indica uma diferença anual de custos, não uma despesa adicional igual para cada empresa. Pimentel defendeu que a política industrial também ajude a reduzir esse peso. A combinação entre custos elevados para produzir e crédito caro, segundo o argumento do dirigente, torna mais difícil ampliar a capacidade produtiva e disputar mercados.
Concorrência internacional pressiona a indústria
O presidente emérito da Abit afirmou que a indústria brasileira enfrenta pressão de excedentes de produção da Ásia, especialmente da China. “A indústria brasileira, de uma forma geral, está sob ataque”, disse. Para responder a esse cenário, defendeu uma defesa comercial ágil e eficiente, junto de medidas para reduzir o Custo Brasil.
Ele também relacionou a importância da política industrial à reorganização geoeconômica mundial. Na sua avaliação, o Brasil precisa elevar a produtividade e modernizar cadeias produtivas, com digitalização, inteligência artificial e maior integração entre setores. Essas mudanças exigem investimento, justamente o ponto que, para Pimentel, fica mais difícil com juros elevados.
O que acompanhar nos próximos passos
Para empresas, o debate envolve a capacidade de financiar modernização e ganhos de produtividade; para trabalhadores e consumidores, a competitividade industrial pode influenciar a atividade e a oferta de produtos ao longo do tempo. As declarações não indicam mudança imediata nos juros nem garantem a adoção das propostas defendidas pelo dirigente.
O próximo passo depende de decisões de política econômica e de medidas concretas para as condições de produção. A discussão reúne, de um lado, a defesa de juros compatíveis com o retorno dos negócios e, de outro, a cobrança por sustentabilidade fiscal, defesa comercial e redução de custos. São esses fatores que devem determinar se políticas industriais conseguem se traduzir em novos investimentos.
