O economista francês Thomas Piketty defende a criação de uma moeda internacional administrada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para substituir o dólar. A proposta integra um relatório de justiça global que também sugere reduzir desigualdades e mudar a organização do trabalho até 2100. São ideias de longo prazo, não decisões em vigor: sua aplicação dependeria de acordos entre países.

Moeda da ONU reduziria a centralidade do dólar

A proposta prevê uma moeda única internacional sob gestão da ONU, em vez do dólar como referência global. Uma moeda de referência é usada como parâmetro em transações e relações econômicas entre países. Se adotada, a iniciativa alteraria a estrutura de poder ligada ao sistema monetário internacional e à influência de quem administra a moeda dominante.

O relatório, elaborado por uma equipe de cerca de 50 pessoas ligada ao World Inequality Lab, da Paris School of Economics, não apresenta uma mudança imediata. Para sair do papel, a ideia exigiria negociação e adesão internacional. Piketty, de 55 anos, diz que o mundo piorou em vários aspectos desde que, cinco anos atrás, comparou a desigualdade atual às condições que antecederam a Revolução Francesa.

Relatório combina renda, tributação e trabalho

Além da moeda global, o documento propõe políticas para levar a renda per capita mundial a 5 mil euros — cerca de R$ 29 mil na cotação do fim de setembro de 2026 — até 2100. O objetivo é aproximar os níveis de renda entre países. O relatório também defende um imposto global sobre a riqueza, com atenção especial às grandes fortunas.

Outra sugestão é que, até 2100, a média internacional de horas trabalhadas caia para menos da metade do nível atual. Na visão apresentada, parte das funções ligadas à produção de alimentos seria deslocada para áreas como educação e saúde. O estudo reúne, assim, propostas sobre distribuição de renda e sobre como organizar a atividade econômica.

Piketty critica nacionalismo e visões tecnológicas

O economista descreve o momento atual como um período “repleto de distopias” e critica o que chama de visões de tecnobilionários e tecnonacionalistas. Segundo ele, uma visão de futuro associada ao trumpismo não resolve desafios de desenvolvimento e meio ambiente. Para Piketty, esses problemas exigem cooperação para além dos interesses nacionais.

O Brasil ocupa lugar importante nessa discussão. Na reunião do G20 realizada no Rio de Janeiro em 2024, o país conseguiu incluir no comunicado final uma referência à tributação dos super-ricos, apesar da resistência argentina. A diplomacia brasileira também apoiou negociações na ONU para criar um sistema tributário internacional.

Negociações na ONU e posição do Brasil

Uma nova reunião dessas negociações está prevista para novembro e dezembro, no Quênia. Piketty espera que o Brasil continue contribuindo para reformar o sistema econômico e monetário internacional. Ele considera que uma guinada do país em direção ao nacionalismo trumpista seria prejudicial tanto para o Brasil quanto para o restante do mundo.

A defesa de uma moeda da ONU, porém, ainda é uma proposta dentro de um conjunto mais amplo de reformas. As conversas sobre tributação internacional e a disposição dos governos em cooperar serão parte do caminho para avaliar se ideias desse tipo podem avançar.

O que muda para brasileiros e investidores

Por enquanto, não há mudança na moeda usada nas transações nem efeito direto sobre preços, contas ou investimentos no Brasil. O relatório não altera regras para investidores e tampouco determina a substituição do dólar. Para quem acompanha o mercado, o tema é uma discussão sobre possíveis mudanças futuras na governança econômica global, não uma alteração imediata na cotação ou no funcionamento do sistema monetário.

Os próximos sinais concretos devem vir das negociações internacionais sobre tributação e da posição que o Brasil adotar nesses fóruns. A proposta de moeda global dependeria de amplo entendimento entre países; até lá, segue como parte da agenda defendida por Piketty.