O diretor da Bioagência, Tarcilo Rodrigues, criticou nesta segunda-feira (28) a política de preços da Petrobras e afirmou que a distância entre a gasolina da estatal e a referência internacional desestimula investimentos em etanol. Segundo ele, a diferença supera R$ 1 por litro. A crítica importa para o setor porque preços menos previsíveis podem dificultar a competição entre os combustíveis e o planejamento de usinas e produtores.
Diferença de preços afeta a disputa entre combustíveis
Rodrigues fez a avaliação durante um painel da 9ª Conferência Nova Cana. Para o executivo, a gasolina chega ao consumidor em um mercado no qual a produção tem forte presença estatal, enquanto o etanol é produzido por empresas privadas. Ele resumiu o desequilíbrio com a pergunta: “Quem que vai montar uma empresa sendo que o seu competidor não segue a regra do mercado internacional?”
O diretor afirmou que a diferença em relação à referência internacional passa de R$ 1 por litro, mas não apresentou uma comparação com períodos anteriores. Na avaliação dele, quando a gasolina fica abaixo dessa referência, o etanol enfrenta uma concorrência mais difícil: usinas podem ter menos espaço para disputar consumidores e ficam mais expostas às mudanças de preço do combustível rival.
Estrutura do mercado e influência sobre a Petrobras
Um dos entraves apontados é a diferença entre os modelos de produção. De acordo com Rodrigues, 85% da gasolina do país é produzida em refinarias que têm o governo federal como principal acionista. O percentual, apresentado pelo executivo no painel, indica a dimensão da presença estatal na oferta de gasolina, em contraste com a produção privada de etanol.
Ele também disse que governos de diferentes orientações políticas exercem influência sobre os preços da Petrobras. Essa possibilidade, segundo Rodrigues, dificulta a competição porque os produtores de etanol precisam tomar decisões de investimento sem saber se a gasolina seguirá as referências internacionais. Projetos de expansão dependem de perspectivas de mercado que permitam estimar receitas e custos ao longo do tempo.
Petróleo caro também eleva custos do etanol
Rodrigues descreveu um cenário em que produtores enfrentaram petróleo acima de US$ 100 enquanto vendiam etanol abaixo do custo. O relato não especifica um período para esses valores, mas o contraste ilustra a pressão sobre as usinas: além da concorrência com a gasolina, a alta do petróleo pode encarecer insumos usados na produção, como fertilizantes e diesel.
Para o executivo, oscilações de preços fazem parte do trabalho com commodities. O problema adicional aparece quando, na sua avaliação, a gasolina concorrente não acompanha as referências internacionais. Essa combinação pode apertar as margens do etanol e tornar mais difícil decidir se vale ampliar a produção ou investir em novas operações.
Bioagência vê espaço para ampliar o uso de etanol
Apesar das críticas, Rodrigues afirmou que há potencial de crescimento mesmo com o mercado de combustíveis do ciclo Otto — usado por veículos movidos a gasolina e etanol — estagnado. Os números apresentados por ele apontam cerca de 62 milhões de metros cúbicos em gasolina equivalente. Desse total, aproximadamente 31 milhões correspondem à gasolina A, que, segundo o executivo, ainda inclui uma parcela que precisa ser importada.
Na estimativa de Rodrigues, a substituição de gasolina poderia abrir espaço para cerca de 45 milhões de metros cúbicos de etanol hidratado. O número representa uma possibilidade de mercado, não uma expansão já contratada ou garantida. Para que esse potencial se concretize, ele considera necessário que o biocombustível consiga competir em condições mais previsíveis.
Previsibilidade será decisiva para novos investimentos
O diretor também criticou a incerteza sobre a continuidade de medidas de apoio, como redução de tributos e subvenção ao etanol. Sem clareza sobre a manutenção ou alteração desses instrumentos, produtores podem ter dificuldade para calcular receitas futuras e organizar investimentos. O material apresentado não detalha quais mudanças estão em discussão nem quando poderiam ocorrer.
Para quem acompanha o setor, a questão central é se preços e políticas públicas darão aos produtores condições de planejar a expansão. Para consumidores, a disputa entre gasolina e etanol pode influenciar as alternativas disponíveis nos postos, mas as declarações não anunciam mudança imediata nos preços. Os próximos passos dependem da evolução da política de preços da Petrobras e da previsibilidade das medidas de apoio ao biocombustível.
