Os títulos da dívida brasileira negociados no exterior chegam ao primeiro turno da eleição, marcado para domingo (4), com a maior valorização desde 2013. O spread dos bonds soberanos — o prêmio pago pelo Brasil em relação aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos — caiu a 158 pontos-base, menor nível desde maio daquele ano, sinal de que investidores exigem menos retorno adicional para emprestar ao país. O movimento, porém, deixa menos espaço para novas altas e aumenta a atenção às urnas.

Prêmio brasileiro está abaixo da média de países semelhantes

O spread atual está 18 pontos-base abaixo da média dos emissores com classificação de crédito BB, segundo dados do JPMorgan. Como o preço de um título tende a subir quando seu prêmio de risco cai, a redução ajuda a explicar a valorização dos papéis brasileiros. Em contrapartida, com o prêmio já comprimido, uma piora na percepção de risco pode provocar uma reação mais intensa.

Os títulos vêm acompanhando as chances atribuídas a cada candidato nos mercados de previsão. A expectativa de uma troca de governo tem sido associada à queda dos spreads. Nas estimativas do banco, uma vitória do senador Flávio Bolsonaro poderia reduzir o prêmio em cerca de 15 pontos-base; uma reeleição de Lula poderia elevá-lo em aproximadamente 30 pontos. São cenários, não previsões certas: o resultado da eleição e a leitura dos investidores sobre o próximo governo podem alterar os preços.

CDS sobe enquanto os bonds avançam

O comportamento dos títulos contrasta com o do CDS de cinco anos, contrato que funciona como uma espécie de seguro contra calote do país. Enquanto os bonds se valorizaram com força em setembro, o CDS subiu na última semana. Uma explicação apontada pelos analistas é que investidores estejam recorrendo mais a esse contrato para se proteger de riscos.

O CDS estava cotado a 125 pontos, enquanto o bond brasileiro com vencimento em 2030 era negociado a um spread de 80 pontos. A diferença entre os dois indicadores, de 45 pontos, é chamada de base. O JPMorgan avalia uma operação que se beneficiaria de uma redução dessa distância para 5 pontos. A divergência mostra que os instrumentos podem reagir de formas diferentes à procura por proteção.

Crédito de empresas esconde riscos distintos

Os títulos de empresas brasileiras também chegaram à eleição com spreads baixos. O índice CEMBI Brasil estava em 198 pontos, menor nível registrado pelo JPMorgan às vésperas de uma eleição desde o início da série, em 2006. Em 2022, o indicador marcava 445 pontos. A comparação, contudo, não conta toda a história: Raízen e Braskem deixaram o índice após entrarem em calote neste ano, o que contribuiu para a queda.

Mesmo ajustado pela classificação de risco, o prêmio dos papéis brasileiros em relação aos de outros emergentes é o segundo maior entre eleições dos últimos 20 anos. Nos títulos de alto risco e alto retorno, a inadimplência chegou a 15,7% no acumulado do ano até agosto, maior taxa da série do banco, iniciada em 2010. CSN, Gol e Azul ainda negociam em níveis de estresse, e fatores próprios de cada empresa podem pesar mais que o resultado eleitoral.

Resultado das urnas divide atenção com fatores globais

Para a dívida corporativa, o JPMorgan espera impacto eleitoral modesto. Petróleo e juros americanos podem influenciar os preços tanto quanto — ou mais que — a disputa política. A carteira do banco tem mais indicações de cautela do que de exposição favorável a empresas brasileiras; entre os papéis que prefere estão Suzano, BRF/MBRF, Banco do Brasil e Vale. Essa avaliação se refere à estratégia do banco, não elimina os riscos específicos de cada companhia.

Para quem acompanha o mercado, o próximo marco é o primeiro turno de 4 de outubro, quando os investidores poderão rever as expectativas para os spreads soberanos e corporativos. Como os prêmios já estão em níveis baixos, o resultado pode mexer com os preços, mas não será o único fator: a evolução dos juros nos Estados Unidos, do petróleo e das condições financeiras globais também deve entrar na conta.