A Skyone alcançou R$ 600 milhões de faturamento, chegou a 35 países e passou a contar com 500 colaboradores após uma trajetória que combinou crescimento com recursos próprios e captações destinadas a objetivos específicos. Fundada em 2013 para ajudar empresas a migrar sistemas para a nuvem, a companhia buscou investidores desde o início, mas não condicionou sua sobrevivência à entrada de dinheiro externo.
O negócio avançou antes de conseguir investimento
Quando tentou captar pela primeira vez, a Skyone ainda tinha apenas uma apresentação em PowerPoint: não havia produto em operação nem clientes. A rodada não aconteceu. Em 2013, o mercado brasileiro de capital de risco era incipiente, e muitos fundos preferiam empresas que já tivessem uma solução funcionando e receita.
Em vez de interromper o projeto ou depender de uma nova tentativa, a empresa seguiu com recursos próprios. O cofundador Ricardo Brandão descreveu essa decisão como uma forma consciente de não precisar daquele dinheiro para continuar. A companhia avançou até alcançar R$ 300 mil de receita recorrente mensal, nível que ele identifica como o momento em que produto e mercado começaram a se encaixar.
Governança veio antes da escala
A preparação para crescer começou antes de haver receita. Desde o primeiro mês de operação, a Skyone mantinha um conselho de administração e se reunia com assessores externos para discutir o projeto. As conversas misturavam decisões estratégicas e questões práticas, ajudando a empresa a se preparar para diferentes cenários.
Essa disposição recebeu internamente o nome de “opcionalidade”: estar estruturada para aproveitar oportunidades quando elas surgissem. A estratégia também se refletiu na captação. Quase um ano depois da fundação, o sogro de Brandão investiu R$ 500 mil. Ele permaneceu na sociedade por 12 anos e saiu na última rodada, segundo o cofundador.
Rodadas de investimento tiveram finalidades distintas
O primeiro fundo entrou em 2018, quando a Invest Tec aportou cerca de R$ 20 milhões. A oportunidade coincidiu com o perfil que a gestora buscava — uma empresa de tecnologia voltada a negócios, com aproximadamente R$ 10 milhões em receita recorrente — e com uma Skyone já organizada para receber o investimento.
Em março de 2020, a empresa tinha um novo termo de investimento assinado, mas o fundo recuou com a chegada da pandemia. A Skyone adiou a captação e acelerou com capital próprio. Ao mesmo tempo, o isolamento ampliou a necessidade de empresas migrarem seus sistemas para a nuvem. Em 2021, a companhia captou R$ 45 milhões com o Inovabra, ligado ao Bradesco, para financiar a internacionalização.
Capital externo entrou para apoiar planos de expansão
Em 2024, a Skyone recebeu R$ 60 milhões da Bewater. O histórico da companhia também inclui um cheque da Advent. Em vez de tratar o investimento como uma solução para cobrir necessidades imediatas, Brandão afirma que cada ciclo de captação foi associado a um propósito claro, como expansão internacional, reorganização de processos, governança ou liquidez para investidores que já estavam na empresa.
Esse modelo não significa que a companhia tenha evitado investidores. A diferença está em ter avançado sem depender de uma rodada para seguir operando e em buscar recursos quando havia um plano definido. A experiência inicial também mostra como a falta de um produto pronto e a baixa oferta de fundos podem dificultar o acesso ao capital, sobretudo para negócios em fase inicial.
O que a trajetória sinaliza para empresas e investidores
Para quem acompanha empresas de tecnologia, o caso reúne duas estratégias que podem coexistir: financiar a operação com o próprio crescimento e recorrer a investidores para acelerar planos específicos. A estrutura de governança criada desde o começo ajudou a companhia a se preparar para negociações, enquanto a expansão da receita tornou o negócio mais atraente para fundos.
A trajetória até R$ 600 milhões e a presença em 35 países dão a dimensão alcançada pela Skyone, mas não garantem que o ritmo de expansão se mantenha. O próximo passo dependerá da execução dos planos da empresa e da capacidade de transformar os recursos captados em crescimento. Para investidores e empreendedores, o percurso destaca a importância de avaliar não só o valor de uma rodada, mas também o objetivo e as condições em que o capital entra no negócio.
