41% das apostas feitas no Brasil já ocorrem em plataformas irregulares, estima a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL). O número ganha relevância diante da proibição das casas de apostas anunciada pelo governo: especialistas avaliam que a medida pode ampliar a migração para sites clandestinos, onde apostadores ficam fora dos mecanismos de proteção e da fiscalização.

Sites clandestinos já representam parcela expressiva

A estimativa da ANJL indica que quase quatro em cada dez apostas já são feitas fora das plataformas regulares. O presidente da entidade, Plínio Lemos Jorge, afirma que identificar e derrubar esses sites é um trabalho contínuo, porque novos endereços surgem mesmo após ações de bloqueio pela Anatel.

Entre junho e agosto de 2026, foram registrados ao menos 13,7 novos domínios por dia, segundo a associação. O dado ajuda a dimensionar o desafio: bloquear um endereço não impede necessariamente que a operação reapareça em outro. Com a proibição, a preocupação de representantes do setor é que mais usuários procurem essas alternativas.

Especialistas alertam para riscos aos apostadores

Para o economista Flávio Ataliba, pesquisador do FGV/Ibre, a mudança pode atingir com mais força quem já enfrenta dificuldade para controlar o hábito de apostar. Na avaliação dele, não são principalmente os apostadores ocasionais que tendem a migrar, mas pessoas mais compulsivas, que ficariam ainda mais distantes de instrumentos de acompanhamento e ajuda.

Ricardo Nigri, presidente-executivo da EBAC, empresa que certifica práticas de jogo responsável, também prevê deslocamento para plataformas ilegais. Sem a supervisão prevista para o mercado regulado, esses usuários podem perder mecanismos como limites de depósito e ferramentas para restringir o tempo ou o valor apostado. A dimensão dessa migração, porém, dependerá de como a proibição será aplicada e de quanto os bloqueios conseguirão alcançar os novos domínios.

O que a regulação prevê e pode deixar de alcançar

As regras brasileiras exigem medidas para reduzir riscos, como verificação por biometria facial, bloqueio de menores de 18 anos e proibição de apostas com cartão de crédito. Também há restrições para determinados grupos, incluindo beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), além de pessoas cadastradas no Fies e no Desenrola.

Na avaliação de Nigri, o modelo permite que plataformas limitem usuários quando identificam sinais de comportamento abusivo, além de deixar que cada pessoa estabeleça limites de uso. Ataliba, por sua vez, questiona a interrupção de uma regulação que, segundo ele, ainda não teve tempo suficiente para ser avaliada. A preocupação comum é que a proibição retire controles do segmento regular sem eliminar a demanda por apostas.

Arrecadação e próximos passos da proibição

A mudança também pode ter efeito sobre as contas públicas. A avaliação de analistas citada no debate é que a saída das empresas licenciadas pode reduzir a arrecadação e abrir discussões sobre indenizações por investimentos feitos no país. Desde o anúncio da regulamentação, em 2023, a União arrecadou R$ 2,5 bilhões em taxas de outorga, conforme informação divulgada junto ao tema.

Para quem aposta, o ponto prático é que a proibição pode alterar onde as plataformas estão disponíveis, mas não necessariamente eliminar as opções clandestinas. Para o governo, o desafio será fazer cumprir a medida e conter a abertura de novos endereços, ao mesmo tempo que lida com a perda potencial de receita e com usuários fora dos sistemas de proteção. A proporção de 41% mostra que esse mercado irregular já tem presença relevante antes mesmo de uma eventual migração adicional.

Impacto para a sociedade

A migração para plataformas sem fiscalização pode deixar apostadores, especialmente os que têm comportamento compulsivo, sem limites e mecanismos de proteção. A proibição também pode reduzir a arrecadação pública obtida com taxas de outorga e dificultar o controle do mercado.