Uma combinação de resultados das empresas, ações negociadas abaixo de sua média histórica e entrada de dinheiro estrangeiro poderia levar o Ibovespa a 207 mil pontos em 2027, segundo Rafael Winalda, especialista do Inter. A projeção ainda poderá ser revista após as eleições, e o banco trabalha com um alvo de 193 mil pontos para o fim de 2026. A avaliação é que o resultado eleitoral importa, mas não explica sozinho o potencial para a bolsa.

Fluxo estrangeiro voltou a favorecer a B3 em setembro

Um dos sinais citados por Winalda é a mudança no comportamento dos investidores estrangeiros. Depois de retirarem cerca de R$ 18 bilhões da bolsa brasileira em agosto, eles voltaram a comprar ações em setembro. Até o dia 21, o saldo líquido no mercado secundário da B3 era positivo em R$ 9,6 bilhões.

Quando investidores de fora aumentam as compras, cresce a demanda por ações negociadas no Brasil, o que pode contribuir para a valorização dos papéis e do índice. Esse fluxo, porém, pode mudar de direção: a entrada registrada em setembro não garante que o movimento continuará nos meses seguintes.

Lucros sustentam a tese, mesmo com ações descontadas

O especialista também aponta a capacidade de geração de lucros das empresas do Ibovespa, observada na temporada mais recente de balanços. Resultados consistentes ajudam a sustentar o valor das ações porque indicam que as companhias conseguem produzir ganhos que podem justificar os preços negociados na bolsa.

Apesar disso, o mercado brasileiro segue abaixo de sua média histórica no índice preço sobre lucro (P/L), uma medida que compara o valor das ações com os lucros das empresas. O múltiplo histórico fica perto de 11 vezes o lucro, enquanto o Ibovespa negocia atualmente entre 8 e 8,5 vezes. Em termos simples, os investidores pagam hoje menos por cada unidade de lucro projetado do que pagaram, em média, no passado.

O alvo depende de uma reavaliação dos preços

Se a incerteza diminuir depois das eleições, Winalda avalia que os investidores poderiam voltar a atribuir preços mais altos às empresas brasileiras. Essa aproximação da média histórica seria uma reprecificação: as ações subiriam não necessariamente porque os lucros aumentaram de imediato, mas porque o mercado aceitaria pagar mais por eles.

Nas contas do especialista, aplicar um múltiplo de 9 vezes aos lucros projetados para 2027 leva a uma faixa de 207 mil a 210 mil pontos para o Ibovespa. Esse é o parâmetro mais conservador usado pelo Inter para chegar à projeção de 207 mil pontos. Com 11 vezes os lucros, perto da média histórica, o índice poderia alcançar entre 240 mil e 245 mil pontos, mas esse não é o cenário-base apresentado pelo banco.

Juros e inflação nos Estados Unidos também entram na conta

O cenário internacional pode abrir espaço para que investidores diversifiquem aplicações e direcionem parte dos recursos a mercados emergentes, como o Brasil. Winalda menciona os juros de longo prazo ainda elevados nos Estados Unidos, o crescimento da dívida do governo norte-americano e a inflação, que permanece no radar.

Esses fatores podem pesar na avaliação de ativos dos Estados Unidos e influenciar a distribuição de recursos entre países. Para o Brasil, uma eventual busca por diversificação pode favorecer a entrada de capital, mas não elimina os riscos ligados ao cenário global nem as incertezas domésticas.

Projeção não é garantia: eleição pode levar a uma revisão

O Inter mantém, por enquanto, a estimativa de 193 mil pontos para o fim de 2026 e projeta 207 mil pontos para 2027. A instituição ainda prevê revisar o alvo do próximo ano depois das eleições. A distância entre esses números e os níveis atuais depende, portanto, da combinação de fluxo estrangeiro, lucros e menor incerteza — e não apenas de uma mudança no múltiplo usado para avaliar as empresas.

Para quem acompanha investimentos, o cenário indica quais fatores podem mexer com a bolsa, mas não determina o caminho do índice. Os dados de entrada e saída de recursos, os balanços corporativos e as condições externas ajudam a mostrar se as premissas da projeção continuam de pé. O próximo marco apontado pelo especialista é o período posterior às eleições, quando o Inter pretende reavaliar suas estimativas.