O mercado para empresas de data centers que querem abrir capital ficou mais exigente, com juros maiores e obstáculos em projetos ligados à inteligência artificial. Nesse cenário, a operadora DayOne mantém o plano de fazer uma oferta pública inicial de ações (IPO) em novembro, mas o adiamento de outra operação e dúvidas sobre projetos de grande porte mostram que a janela para captar recursos pode se estreitar.
DayOne prepara pedido de registro nos Estados Unidos
A empresa, sediada em Cingapura, pretende tornar público em meados de outubro seu pedido de registro à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) e abrir o capital no mês seguinte, de acordo com fontes a par dos planos. A DayOne desenvolve e opera instalações para clientes de computação em nuvem e inteligência artificial. A companhia não comentou.
A empresa poderia buscar até US$ 5 bilhões no IPO, com avaliação em torno de US$ 20 bilhões. Em junho, havia levantado US$ 4,5 bilhões em uma rodada de financiamento série C — uma captação privada de recursos. Entre seus investidores estão Coatue e Hillhouse.
Operações em funcionamento ajudam a diferenciar a empresa
A DayOne tem cerca de 2,1 gigawatts em reservas de capacidade e atua na Ásia-Pacífico e na Europa, com presença na Malásia, em Hong Kong, no Japão, na Finlândia e na Espanha. Uma das fontes apontou que a atuação em diferentes regiões e a existência de data centers já operacionais, em vez de apenas planejados, ajudam a companhia a se destacar.
Essa diferença importa porque construir as instalações exige muito capital antes de elas começarem a gerar receita. Investidores tendem a avaliar com mais confiança empresas que já têm clientes e demanda contratada do que projetos cuja ocupação futura ainda depende de previsões. “A linha divisória está em saber se a demanda já foi contratada e está em operação, ou se é apenas planejada”, disse Ke Yan, chefe de pesquisa da Shenton Research.
Adiamento da SB Energy expõe as cobranças dos investidores
A SB Energy, apoiada pela SoftBank, adiou nesta semana os planos de divulgar formalmente seu IPO enquanto responde a questões adicionais da SEC. Há preocupação com a avaliação pretendida, de cerca de US$ 60 bilhões, e com a dependência da OpenAI como principal cliente, segundo fontes ouvidas sobre o assunto. A empresa não comentou.
O projeto da SB Energy em Ohio também envolve compromissos financeiros de grande porte: a Nvidia concordou em garantir até US$ 105 bilhões para ajudar a OpenAI a alugar o data center, além de investir US$ 1,5 bilhão na SB Energy. Separadamente, uma disputa envolvendo Oracle e Blue Owl pode atrasar um grande projeto de data centers no Novo México. São sinais de que escala, por si só, não elimina as dúvidas sobre execução e financiamento.
Juros e energia pesam na conta dos projetos
Juros mais altos encarecem o dinheiro usado para construir data centers. Como o retorno dessas instalações pode demorar anos, aumenta o custo de manter o projeto financiado até que ele gere receita. Ao mesmo tempo, os investidores querem mais clareza sobre quem serão os clientes e quais contratos sustentarão o fluxo de caixa.
A disponibilidade de eletricidade também se tornou uma restrição central. Na avaliação de Ke Yan, investidores favorecem empresas com fornecimento de energia garantido, capacidade já contratada em operação ou perto de ser concluída e contratos de longo prazo do tipo “pague ou use”. Esse modelo obriga o cliente a pagar pela capacidade reservada mesmo que não a utilize integralmente.
O que observar antes das próximas ofertas
Desenvolvedoras e operadoras como Switch, Vantage Data Centers e CyrusOne também avaliam IPOs, enquanto a SoftBank busca levantar US$ 10 bilhões em dívida denominada em dólares para ajudar a financiar seus investimentos na OpenAI. A quantidade de operações em preparação aumenta a disputa pela atenção e pelo dinheiro dos investidores.
Para quem acompanha o mercado, o ponto prático é observar não só o tamanho anunciado de cada oferta, mas também a energia disponível, os contratos com clientes e o estágio real das instalações. Os próximos passos da DayOne — incluindo a publicação do registro em outubro — e a capacidade da SB Energy de resolver as pendências da SEC ajudarão a mostrar se ainda há espaço para novas ofertas no setor.
