A dez dias do primeiro turno das eleições, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu em artigo na revista britânica The Economist que o governo Lula adotou a política fiscal correta. A manifestação leva a discussão sobre as contas públicas para o debate eleitoral e apresenta a avaliação do governo em um tema que preocupa investidores e pode influenciar as condições de financiamento do país.

Ministro destaca queda do déficit primário

O principal argumento de Durigan é a redução do déficit primário, diferença entre receitas e despesas do governo antes do pagamento de juros da dívida. Segundo o ministro, o indicador caiu de pouco mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2023 para uma projeção de 0,6% do PIB em 2026. Ele afirma que a melhora ocorreu sem cortar políticas sociais.

Essa redução, porém, não significa que a dívida deixou de ser um desafio. A melhora nas contas primárias foi atribuída ao aumento da arrecadação e da carga tributária, mas, de acordo com os dados apresentados no artigo, o avanço foi integralmente absorvido pelo custo dos juros da dívida pública. Esse serviço passou de 6% do PIB em 2023 para 8,5% neste ano.

Arcabouço fiscal é apresentado como garantia

Durigan também defendeu o arcabouço fiscal, regra aprovada em 2023 para orientar a evolução das despesas do governo. Na avaliação do ministro, o mecanismo ajudou a manter os gastos primários perto de 19% do PIB e abre espaço para que o orçamento de 2027 volte a projetar superávits.

O ministro sustenta ainda que a trajetória fiscal contribuiu para reduzir a pressão sobre os juros de longo prazo e estabilizar a dinâmica da dívida desde 2024. Ele cita elevações na nota de crédito do Brasil por agências de classificação de risco e a redução da percepção de risco de calote como sinais favoráveis à estratégia econômica.

Discurso contrasta com críticas do mercado

A avaliação do governo é contestada por nomes do mercado financeiro, que apontam gastos elevados, déficits e crescimento da dívida. Luis Stuhlberger, fundador e diretor de investimentos da Verde Asset, classificou recentemente o terceiro mandato de Lula como o pior do presidente em matéria fiscal e disse que o país entrou em uma trajetória preocupante.

A reação dos ativos a anúncios fiscais também mostra por que o tema acompanha a campanha. Em 17 de setembro, após o governo anunciar reajuste de 15,04% no Bolsa Família, a Bolsa chegou a perder 3 mil pontos durante a manhã, as negociações do Tesouro Direto foram interrompidas por causa da volatilidade e o dólar avançou frente ao real. Os ânimos se acalmaram ao longo do dia, mas a incerteza sobre as contas públicas continuou no radar.

O que os números dizem — e o que não dizem

A queda do déficit primário é um dado relevante, mas não basta, isoladamente, para mostrar que a dívida está sob controle. O custo dos juros também pesa: quando aumenta, o governo precisa destinar mais recursos ao pagamento de credores, o que pode dificultar a redução da dívida mesmo que o resultado antes dos juros melhore.

O artigo do ministro apresenta, portanto, uma interpretação favorável dos indicadores e das regras fiscais. A crítica dos investidores se concentra na capacidade de manter essa trajetória ao longo do tempo, especialmente diante do custo crescente da dívida. São leituras distintas sobre o mesmo desafio: equilibrar receitas e despesas e conter o endividamento.

Eleição mantém contas públicas no centro do debate

Para quem investe, a disputa importa porque a percepção de risco fiscal pode influenciar os juros de longo prazo, que servem de referência para financiamentos e aplicações. Para trabalhadores e consumidores, as escolhas sobre impostos e gastos também podem afetar serviços públicos, programas sociais e o espaço para medidas futuras.

Durigan usou o artigo para defender o balanço econômico do governo e apresentar prioridades para os próximos anos, incluindo iniciativas para ampliar a participação das mulheres no mercado de trabalho. Com a votação a dez dias, a continuidade da regra fiscal, o controle da dívida e a capacidade de cumprir as metas devem seguir entre os pontos centrais da discussão econômica.

Impacto para a sociedade

A política fiscal influencia quanto o governo pode gastar em serviços e programas públicos e quanto precisa arrecadar em impostos. A trajetória das contas também pode afetar os juros cobrados no país, com reflexos no crédito, no consumo e no custo de financiamento do governo.