A Operação Crédito Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (24), mira o sócio-proprietário do Banco Genial Humberto Tupinambá e Antonio Carlos Freixo Junior, delator do Banco Master, em uma investigação sobre suposta ocultação dos verdadeiros donos da distribuidora de combustíveis Terrana. O caso importa por envolver uma estrutura com fundos e empresas que, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), teria sido usada para dissimular a origem de recursos e viabilizar a aquisição da companhia.
Operação reúne 40 alvos em seis estados
Na terceira fase, a investigação alcança 40 alvos em 32 endereços de 11 cidades, distribuídas por seis estados e pelo Distrito Federal. Também estão na mira os irmãos André e Bruno Tupinambá e o Grupo Entre, ligado a Freixo. A força-tarefa reúne o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a Receita Federal e órgãos estaduais, além das polícias Civil e Militar.
As suspeitas ainda estão em apuração e não significam, por si só, comprovação de responsabilidade dos investigados. O MPSP afirma que a operação busca esclarecer o uso de estruturas financeiras para ocultar o controle de uma empresa sucroalcooleira e, posteriormente, a compra da Terrana.
Fundos e empresas teriam ocultado beneficiários
De acordo com o Gaeco, a aquisição da distribuidora teria sido viabilizada por uma estrutura montada por Tupinambá e pelo advogado Rogério Garcia Peres, sócio e fundador da administradora de fundos Altinvest. A arquitetura investigada envolveria nove fundos de investimento e 27 empresas. Parte dessas companhias teria sido usada para afastar dos documentos os nomes de quem realmente se beneficiaria da operação.
Um dos instrumentos citados é o Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), que reúne recursos para investir em créditos a receber, como pagamentos futuros. Segundo a investigação, uma operação de cerca de R$ 370 milhões em direitos creditórios da Usina Itajobi foi feita por meio da transferência de cotas de um FIDC. Fundos controlados pelo próprio grupo teriam fornecido parte relevante dos recursos, formando um fluxo circular que dificultaria rastrear os beneficiários finais.
Movimentações financeiras estão sob análise
Em um episódio descrito pelos investigadores, contas da Itajobi teriam recebido R$ 100 milhões em poucos minutos. O dinheiro teria passado por contas de empresas ligadas ao grupo, mantidas em fintechs, antes de chegar à usina e ser incorporado a outro fundo criado para a operação. A apuração também aponta que a empresa financeira envolvida na compra da companhia sucroalcooleira movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
Para os promotores, o volume movimentado, junto com os demais elementos reunidos, reforça suspeitas de ocultação de patrimônio, dissimulação da origem dos recursos e lavagem de dinheiro. O papel atribuído ao Banco Genial não se limitaria a financiar a operação: segundo o Gaeco, o banco teria estruturado transações para esconder a origem do dinheiro e os proprietários reais dos recursos.
Grupo Entre também aparece em outra frente
Além da investigação sobre a Terrana, o Grupo Entre é citado em apuração relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo as apurações, a empresa teria sido usada para movimentar US$ 12,33 milhões enviados por Daniel Vorcaro para financiar a produção. Essa conexão aparece como uma frente adicional envolvendo Freixo e o grupo, distinta da suspeita central sobre a compra da distribuidora.
Para quem acompanha o mercado, o caso chama atenção para o uso de fundos, empresas e operações de crédito em estruturas que podem dificultar a identificação de quem controla um negócio e de onde vêm os recursos. A investigação ainda precisa avançar para esclarecer a participação de cada alvo e confirmar ou não as suspeitas. Por enquanto, o MPSP busca desmontar a rede financeira que, segundo os investigadores, teria sido montada em torno da aquisição da Terrana.
