O Banco Central estima em 90% a chance de o IPCA superar o teto da meta de inflação em 2026 e projeta que o índice feche o ano em 5,2%. A probabilidade subiu 11 pontos percentuais em relação à avaliação anterior, de 79%. A estimativa fica 0,7 ponto acima do limite de 4,5%, apesar de a inflação acumulada em 12 meses ter recuado nos meses recentes.

Projeção aponta inflação acima da meta por vários trimestres

No cenário de referência do Relatório de Política Monetária de setembro, o IPCA em 12 meses deve chegar a 4,4% no terceiro trimestre de 2026 e encerrar o ano em 5,2%. Para 2027, o Banco Central prevê inflação de 4,9% no primeiro trimestre, 4,5% nos dois trimestres seguintes e 3,9% no fim do ano.

A meta contínua é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. O índice projetado fica acima do centro da meta até o primeiro trimestre de 2029, último período da trajetória divulgada: o BC espera 3,2% no primeiro trimestre de 2028 e 3,1% nos trimestres seguintes, inclusive no início de 2029.

Alívio recente na conta de luz não deve durar

O IPCA em 12 meses caiu de 4,72% em maio para 4,22% em agosto, abaixo do teto. O relatório atribui parte desse recuo a fatores temporários na energia elétrica: o bônus de Itaipu contribuiu com redução de 0,34 ponto percentual em agosto, e a bandeira tarifária amarela, com 0,32 ponto.

Com a reversão desses efeitos e pressões de curto prazo, o BC espera que a inflação volte a subir no último trimestre de 2026. O relatório também aponta o clima e o petróleo mais caro como fatores de alta nos meses próximos. Um El Niño intenso pode afetar lavouras como milho, algodão e arroz, com efeitos sobre a soja diferentes conforme a região.

Expectativas e atividade econômica pesam no cenário

A projeção do BC para 2026 é maior que a mediana da Pesquisa Focus, de 4,90%. Para 2027 e 2028, as estimativas do levantamento são de 4,30% e 3,80%, respectivamente, ambas acima do centro da meta. Expectativas persistentes de inflação elevada podem influenciar reajustes de preços e salários, dificultando a convergência para os 3%.

O relatório reduziu a previsão de crescimento do PIB em 2026 de 2% para 1,8% e projeta expansão de 1,4% em 2027. A economia avançou 0,5% no segundo trimestre, após crescer 1,1% no primeiro; o consumo das famílias recuou 0,4% no período. O BC também vê incerteza fiscal, com déficit primário projetado em R$ 52 bilhões para o Governo Central em 2026.

Selic menor, mas política monetária ainda restritiva

Em 16 de setembro, o Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, um corte de 0,25 ponto percentual. Mesmo com a redução, o BC afirma que a política monetária continua restritiva, em meio à incerteza fiscal e às expectativas de inflação acima da meta. A inadimplência chegou a 4,9% em julho, maior nível da série histórica citada no relatório.

Juros altos tendem a encarecer empréstimos e financiamentos e a frear o consumo, ajudando a moderar a demanda e os preços. Para quem investe, a Selic influencia o retorno de aplicações de renda fixa e o custo de financiamento das empresas; a inflação, por sua vez, afeta o poder de compra dos rendimentos. Os próximos dados de preços e a evolução das expectativas serão importantes para a avaliação do BC, que busca levar a inflação à meta no horizonte relevante, o primeiro trimestre de 2028.

Impacto para a sociedade

A inflação acima do teto pode manter mais caros produtos e serviços e reduzir o poder de compra das famílias. Juros elevados encarecem empréstimos e financiamentos, embora ajudem a conter a alta dos preços ao desestimular o consumo.