O dólar comercial subiu 1,28% e fechou a R$ 5,168 nesta quarta-feira (23), enquanto o Ibovespa caiu 0,86%, para 185.814,09 pontos. A combinação de uma pesquisa eleitoral que mexeu com as expectativas sobre as contas públicas e de pressões nos mercados internacionais levou investidores a buscar mais proteção na moeda americana e reduziu o apetite por ações brasileiras.

Pesquisa eleitoral reacende preocupação fiscal

O levantamento Atlas/Bloomberg mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 47,7% das intenções de voto em um eventual segundo turno, ante 47,4% do senador Flávio Bolsonaro. A diferença está dentro da margem de erro de um ponto percentual, mas recolocou Lula numericamente à frente. Na pesquisa anterior, ele tinha 46,8%, contra 47,2% de Flávio.

Para parte do mercado, a disputa eleitoral importa porque pode influenciar as expectativas para a política fiscal a partir de 2027. Investidores temem que, sem sinais de compromisso com o controle das contas públicas, a dívida continue pressionando a economia. Quando cresce a percepção de risco, eles tendem a exigir juros maiores para financiar o país e a procurar proteção no dólar — movimento que pode pressionar o câmbio.

Juros americanos e petróleo pesam no cenário externo

Também contribuiu para a alta da moeda o avanço dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, conhecidos como Treasuries. O rendimento do papel de dez anos voltou a superar 5%. Juros mais altos nos EUA podem tornar os títulos americanos mais atraentes e reduzir o interesse por ativos de países emergentes, como ações e títulos brasileiros.

Os dados de atividade e as tensões internacionais reforçaram essa pressão. O índice de gerentes de compras (PMI) dos EUA subiu de 56,0 em agosto para 58,4 em setembro, seu maior nível desde julho de 2021; acima de 50, o indicador sinaliza expansão. A perspectiva de nova alta de juros pelo Federal Reserve e o petróleo Brent novamente acima de US$ 100 por barril também alimentaram preocupações com a inflação. No dia, o dólar oscilou de R$ 5,121 a R$ 5,176 e terminou perto da máxima.

Ibovespa virou para alta, mas perdeu força

A Bolsa começou o pregão em queda, acompanhando a cautela eleitoral, e chegou a recuar 0,73%. Depois, as ações da Petrobras ajudaram o Ibovespa a se recuperar: o índice alcançou 188.772 pontos, alta de 0,72% no melhor momento. A valorização do petróleo e fatores técnicos, como a recomposição de posições após a queda inicial, favoreceram a estatal.

Na parte da tarde, a piora do ambiente internacional e a nova rodada de fortalecimento do dólar inverteram o movimento. A Petrobras preferencial (PETR4) avançou 2,59%, mas não compensou as quedas de Vale (VALE3), de 1,85%, e de grandes bancos, que recuaram cerca de 2%. O índice terminou 1.608,83 pontos abaixo do fechamento de terça-feira, quando havia subido 0,44%, para 187.422,92 pontos. O volume financeiro foi de R$ 18,59 bilhões, ante R$ 30,20 bilhões na sessão anterior.

O que acompanhar depois do fechamento

Para quem investe, a sessão mostrou como notícias eleitorais e mudanças nos juros globais podem alterar rapidamente o humor do mercado. A pesquisa não definiu o resultado da eleição, e a diferença entre os candidatos permanece dentro da margem de erro. Nos próximos pregões, o comportamento do dólar e da Bolsa dependerá, entre outros fatores, de novos sinais sobre a disputa, as contas públicas, os juros americanos e o petróleo.

Para consumidores e empresas, a alta do dólar pode elevar o custo de produtos e insumos importados se persistir, embora a variação de um único pregão não determine o preço final nas lojas. O efeito depende de quanto tempo o câmbio permanece pressionado e de como os custos são repassados. Por isso, o fechamento de quarta-feira indica uma mudança nas expectativas dos investidores, mas não permite concluir, sozinho, qual será o impacto sobre a inflação ou sobre as despesas das famílias.