Howard Marks, cofundador da Oaktree Capital Management, afirmou nesta terça-feira (22) que os juros elevados dos Estados Unidos refletem fundamentos econômicos — déficit público, inflação persistente e forte demanda por capital — e não uma distorção temporária do mercado. A avaliação contraria a tentativa do Tesouro americano de conter os rendimentos dos títulos longos por meio de recompras e indica que a pressão pode continuar enquanto Washington não mudar sua política fiscal.

Por que as recompras do Tesouro não resolveram a alta

O Tesouro dos Estados Unidos triplicou neste mês o limite das recompras de títulos de prazo longo, depois que o rendimento do papel de 30 anos atingiu o maior nível em 19 anos. O teto por operação passou de US$ 2 bilhões, em agosto, para US$ 4 bilhões e, em setembro, chegou a US$ 6 bilhões.

A operação reduz temporariamente a quantidade de títulos disponíveis no mercado e pode aliviar os juros. Para Marks, porém, o efeito é principalmente psicológico e passageiro. Ele comparou a medida à aplicação de uma bolsa de gelo em um paciente com febre: ameniza o sintoma, mas não trata a causa da alta.

Déficit, inflação e dívida pressionam os juros longos

Na avaliação do gestor, os rendimentos refletem a combinação de um déficit fiscal próximo de 6% do PIB, desemprego em torno de 4% e inflação persistente, agravada pelo petróleo caro em meio à guerra com o Irã. Os gastos líquidos do governo americano com juros devem superar US$ 1 trilhão em 2026, acima do orçamento de defesa.

A dívida federal já alcança US$ 40 trilhões. Ao mesmo tempo, o Tesouro precisa colocar no mercado cerca de US$ 2 trilhões em novas emissões líquidas. Quanto maior a oferta de títulos, maior tende a ser a remuneração exigida pelos investidores para absorver esse volume, especialmente quando há dúvidas sobre o controle das contas públicas.

Inteligência artificial aumenta a disputa por capital

Marks também citou a forte demanda privada por recursos, impulsionada pelos investimentos em inteligência artificial. Empresas e governos disputam o mesmo capital disponível, o que pode manter elevados os juros de longo prazo mesmo quando o banco central reduz ou sinaliza cortes nas taxas de curto prazo.

O gestor ainda alertou que, se as recompras forem acompanhadas por mais emissão de títulos curtos, o prazo médio da dívida diminuirá. Nesse caso, o governo precisará refinanciar seus compromissos com mais frequência, ficando mais exposto a novas altas dos juros.

Dólar é o principal risco, não um calote americano

Marks não vê risco relevante de os Estados Unidos deixarem de pagar a dívida, já que os títulos são emitidos na moeda do próprio país. O dólar continua dominante nas reservas e nas transações globais, o que sustenta a capacidade de pagamento do governo.

A preocupação está no poder de compra da moeda. Emissões excessivas podem corroer o valor do dólar e levar os investidores a exigir juros ainda maiores para compensar a perda. Como resposta, Marks defende elevar a arrecadação em relação ao PIB, aumentar alíquotas para as rendas mais altas, eliminar benefícios fiscais e fazer os gastos crescerem abaixo da economia.

O que a avaliação sinaliza para investidores e consumidores

Na visão de Marks, o problema é político e fiscal, mas produz consequências financeiras. Juros americanos mais altos podem sustentar o dólar, aumentar o custo de financiamento no mundo e pressionar bolsas e títulos de países emergentes. No Brasil, esse ambiente pode influenciar o câmbio, a inflação de produtos importados e as condições de crédito.

O gestor não recomendou abandonar ações americanas, porque considera que a fragilidade está na gestão fiscal e na moeda, não necessariamente nas empresas ou na bolsa. Para ele, a solução depende de uma mudança de comportamento em Washington, com ajuste das contas públicas e preservação de eventuais ganhos de produtividade gerados pela inteligência artificial, em vez de converter toda receita adicional em novos gastos.

Impacto para a sociedade

A pressão sobre os juros americanos pode fortalecer o dólar e encarecer produtos importados, além de influenciar o custo do crédito no Brasil. O petróleo mais caro, citado por Marks como fator de inflação nos EUA, também pode aumentar custos de transporte e pressionar preços ao consumidor brasileiro.