O mercado financeiro passou a projetar inflação de 4,92% em 2026 e um novo corte da Selic, de 13,75% para 13,50% ao ano, segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (21). A combinação indica que os economistas esperam uma atividade mais fraca, mas não uma melhora no comportamento dos preços, cenário que pode limitar o alívio no crédito e manter a cautela nos investimentos.
Projeções para inflação e atividade pioraram
A estimativa para o IPCA, índice oficial de inflação, subiu de 4,90% para 4,92% em 2026. A revisão foi feita com base na pesquisa da semana passada, que reúne mais de 100 instituições financeiras. O movimento mostra que a perspectiva para os preços se deteriorou mesmo com a expectativa de juros menores.
Ao mesmo tempo, o mercado reduziu ligeiramente a previsão para o PIB, que mede a produção de bens e serviços no país. A projeção para 2026 caiu de 1,89% para 1,88%, enquanto a estimativa para 2027 recuou de 1,45% para 1,43%.
Por que o mercado prevê corte mesmo com inflação maior
Para André Matos, CEO da MA7 Capital, a mudança nas projeções está ligada principalmente à perda de força da economia. “O motivo da revisão não é inflação melhor, é economia mais fraca”, afirmou. Em outras palavras, a atividade menos aquecida pode reduzir a pressão sobre a demanda e abrir espaço para uma política monetária menos restritiva.
A projeção de corte, porém, não representa uma decisão já tomada pelo Banco Central. Ela expressa a expectativa das instituições consultadas pelo Focus para a trajetória da taxa básica até o fim de 2026. Cassio Viana de Jesus, da Pilar Capital, ressaltou que a inflação projetada subiu enquanto o crescimento esperado diminuiu, uma combinação que torna o cenário mais complexo.
Selic menor não garante crédito mais barato
A Selic influencia diretamente o custo de captação dos bancos e tende a reduzir, ao longo do tempo, os juros de empréstimos e financiamentos. Mas o repasse não é automático nem proporcional. Alberto Friggi, da Friggi & Secco, destacou que inadimplência, garantias, prazo e custo de captação também entram no cálculo das operações.
O risco fiscal é outro fator relevante. Se investidores exigirem uma remuneração maior para financiar o governo, as taxas de prazo longo podem continuar elevadas mesmo com uma eventual queda da Selic. Valdir Piran Jr., do Grupo Intra, resumiu o risco: empresas podem enfrentar custo de capital alto apesar da redução dos juros básicos.
O efeito sobre renda fixa e bolsa
Para aplicações de renda fixa ligadas à taxa básica ou ao CDI, uma Selic menor tende a reduzir o retorno futuro dessas modalidades. Em contrapartida, a expectativa de queda pode alterar antecipadamente os preços de títulos prefixados e atrelados à inflação, que também respondem às taxas negociadas para prazos mais longos.
Na bolsa, juros menores costumam favorecer ações porque reduzem a taxa usada para comparar os lucros futuros das empresas com outras alternativas de investimento. O efeito, no entanto, pode ser compensado por crescimento fraco, inflação resistente e dúvidas fiscais. A desvalorização do real também pode pressionar os preços e limitar o espaço para novos cortes, segundo Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos.
O que observar até o fim de 2026
A trajetória da dívida pública e a confiança dos investidores estarão entre os principais fatores para definir se a queda projetada da Selic chegará ao crédito de longo prazo. Dúvidas fiscais podem levar investidores a preferir operações mais curtas, dificultando o financiamento de projetos de infraestrutura e expansão empresarial.
Para consumidores e empresas, o impacto dependerá não apenas da taxa básica, mas também do câmbio, da inadimplência e das condições de captação. Para quem investe, os próximos dados de inflação, atividade econômica e as decisões do Banco Central serão determinantes para confirmar ou revisar o cenário atualmente apontado pelo Focus.
Impacto para a sociedade
A projeção de inflação mais alta pode dificultar a queda do custo de vida, enquanto juros menores tendem a aliviar gradualmente parcelas e financiamentos. Esse efeito pode ser limitado se o risco fiscal mantiver elevados os juros cobrados em operações de prazo mais longo, afetando empresas, consumidores e o ritmo de contratação.
