As favelas brasileiras representam um mercado potencial de R$ 300 bilhões por ano para o setor de seguros, mas ainda têm baixa contratação de proteção financeira. São 17,2 milhões de pessoas em 6,6 milhões de domicílios, uma população maior que a da Bolívia e com riscos concretos, mas pouco atendida por produtos desenhados para sua realidade.

Renda e risco já existem, mas proteção ainda é baixa

As famílias que vivem nas favelas movimentam R$ 300 bilhões em renda própria por ano, valor superior à economia de 22 dos 27 Estados brasileiros e próximo do Produto Interno Bruto boliviano. O tamanho desse mercado contrasta com a presença reduzida nos dados de contratação de seguros.

Em 2025, os microsseguros, categoria regulada pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), arrecadaram R$ 1,46 bilhão no país. O montante caiu 10,9% em relação a 2024, enquanto os seguros de danos cresceram 7,32% no mesmo período. O número não inclui necessariamente todas as apólices contratadas por famílias de menor renda, mas ajuda a mostrar a distância entre o mercado potencial e a proteção efetiva.

Despesas inesperadas podem provocar ruptura financeira

A experiência de Helen de Araújo, moradora de Paraisópolis, em São Paulo, ilustra o problema. Depois da morte da sobrinha, parentes precisaram se juntar para pagar o velório e o enterro, dividindo o custo entre dinheiro e cartão. O episódio levou Helen a contratar um seguro pessoal com assistência funerária.

Para famílias com pouca reserva, um evento grave não representa apenas uma emergência emocional ou de saúde. Ele também pode gerar uma conta imediata, dificultar o pagamento de despesas básicas e aumentar o endividamento. Nesse contexto, o seguro funciona como uma forma de transferir parte do custo de um risco para uma empresa, mediante o pagamento de uma parcela.

Moradores reconhecem a utilidade dos seguros

Uma pesquisa do Instituto Locomotiva encomendada pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) indica que a baixa contratação não decorre apenas de desconhecimento. 62% dos moradores de favelas afirmam já ter passado por situações que teriam sido mais fáceis se tivessem seguro.

Para 57%, a principal função do produto é oferecer tranquilidade e segurança. Apenas 15% dizem nunca ter buscado informações sobre seguros e não ter interesse no tema. Os dados sugerem que existe percepção sobre a importância da proteção, mas a contratação ainda não se transformou em hábito disseminado.

Produtos precisam refletir a realidade local

Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, o obstáculo também é simbólico: o seguro é conhecido, mas ainda não é percebido como um produto feito para quem mora na favela. Ele compara essa relação à de alguém que sabe o que é uma Ferrari, mas não a considera um carro destinado a si.

A adaptação passa por coberturas relacionadas à vida financeira dessas famílias. Um carro com mais de dez anos, a atividade de motorista de aplicativo ou uma batedeira usada para gerar renda podem ter importância econômica muito maior do que seu valor de mercado. Produtos que ignorem esse contexto tendem a parecer distantes, mesmo quando o preço é acessível.

O desafio é transformar potencial em escala

O mercado precisa aproximar preço, cobertura e distribuição das necessidades de 17,2 milhões de moradores. A contratação pode incluir seguros pessoais, assistência funerária e proteção de bens ou instrumentos de trabalho, mas a existência de demanda não garante, por si só, que os produtos alcançarão escala.

Para quem vive nessas comunidades, o ponto central é avaliar se a proteção cobre riscos realmente relevantes e se as condições são compreensíveis. Para as seguradoras, o desafio é converter um mercado anual de R$ 300 bilhões em contratos efetivos, sem tratar a população apenas como um segmento estatístico. A evolução dos microsseguros e de outras modalidades voltadas à baixa renda será um dos sinais desse avanço.

Impacto para a sociedade

A baixa oferta de seguros afeta diretamente famílias que têm pouca reserva para enfrentar despesas inesperadas, como funerais, problemas de saúde ou perda de renda. Produtos mais adequados a essa realidade podem reduzir o impacto financeiro desses eventos, desde que tenham preço, cobertura e canais acessíveis.