O PIB da Argentina encolheu 0,6% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores, registrando a primeira contração em dois anos. O resultado interrompe a recuperação que vinha sustentando a popularidade do presidente Javier Milei e aumenta o risco de uma nova queda no terceiro trimestre, cenário que caracterizaria uma recessão técnica.

Consumo e setores que mais empregam perderam força

A economia ainda cresceu 2% na comparação anual no segundo trimestre, apoiada pelo aumento das exportações de energia e produtos agrícolas e pela redução das importações. O ministro da Economia, Luis Caputo, destacou que 13 dos 16 setores registraram crescimento no primeiro semestre.

O desempenho, porém, esconde uma diferença importante entre os segmentos ligados à exportação e aqueles mais dependentes do consumo interno. Varejo, construção civil e indústria manufatureira estão perdendo postos de trabalho, enquanto a inadimplência em empréstimos ao consumidor aumenta.

O consumo caiu 2,4% entre abril e junho, pressionado pelo crescimento lento dos salários e pela restrição ao crédito. Esses setores representam cerca de metade do emprego assalariado privado registrado, enquanto agricultura, energia e mineração respondem por aproximadamente um quinto e concentram parte relevante dos investimentos e das exportações.

Inflação caiu, mas a renda das famílias continua pressionada

A chamada terapia de choque de Milei reduziu drasticamente o ritmo de alta dos preços. A inflação anual ficou em 34% no mês passado, ante mais de 200% quando o presidente assumiu o cargo. Mesmo assim, a desaceleração não foi suficiente para recompor o poder de compra ou aliviar o mercado de trabalho.

Pesquisas recentes mostram que corrupção e desemprego passaram a preocupar mais os eleitores do que a inflação. Para as famílias, o efeito prático é uma combinação de renda fragilizada, crédito mais caro ou menos disponível e aumento da inadimplência, ainda que os preços estejam subindo mais lentamente.

O peso forte ajuda a inflação, mas prejudica a atividade

Milei mantém o foco em reduzir a inflação mensal para menos de 1% e apoia uma política de peso forte. Até agosto, a moeda argentina havia perdido apenas 3,7% de seu valor diante do dólar, enquanto os preços ao consumidor subiram 21% no mesmo período.

Na prática, um câmbio mais valorizado barateia produtos importados e ajuda a conter os preços, mas pode reduzir a competitividade de empresas locais e dificultar a recuperação da indústria. A valorização do peso foi reforçada nas últimas semanas por intervenções oficiais nos mercados de títulos e contratos futuros, enquanto os controles cambiais para empresas continuam em vigor.

Mercado teme mudança de rumo após as eleições

Investidores em títulos da dívida soberana argentina temem que a perda de apoio ao programa de Milei aumente a possibilidade de reversão das reformas fiscais e de mercado depois das eleições de 2027. A atividade econômica, portanto, passou a ter peso não apenas social, mas também financeiro.

O economista Fernando Marull prevê uma possível segunda contração consecutiva no terceiro trimestre. Carlos Melconian, da MacroView, afirmou que, independentemente da definição técnica de recessão, a situação continuará extremamente apertada para as famílias.

O que observar até a eleição de 2027

A oposição tenta transformar desemprego, renda familiar e endividamento em temas centrais da disputa, enquanto o governo aponta agricultura, energia e mineração como sinais de que a crise já foi superada. O governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, classificou a política cambial e econômica como uma estratégia de desindustrialização.

Para quem acompanha a Argentina, os próximos indicadores de consumo, emprego e PIB serão decisivos. Uma nova queda trimestral reforçaria o diagnóstico de recessão e poderia aumentar a pressão política sobre Milei; uma retomada, por outro lado, ajudaria o governo a defender que a estabilização da inflação prepara uma recuperação mais duradoura.