O Bank of America (BofA) passou a projetar mais duas altas de juros do Federal Reserve (Fed) até o fim de 2026, depois do aumento de 25 pontos-base, ou 0,25 ponto percentual, em setembro. A previsão contraria o mercado, que considera mais provável apenas uma nova elevação, na reunião de dezembro, e indica que o ciclo de aperto monetário americano pode ser mais longo do que o inicialmente esperado.
BofA prevê três altas consecutivas até o fim do ano
Em uma nota divulgada na sexta-feira, o banco afirmou que o Fed pode ter acabado de iniciar uma sequência de aumentos nas próximas reuniões. Se a projeção se confirmar, a autoridade monetária elevaria os juros três vezes em 2026: a alta já realizada em setembro e mais duas até dezembro.
Depois dessa sequência, a avaliação do BofA é que o Fed faria uma pausa prolongada. A diferença em relação às expectativas predominantes do mercado é relevante porque juros americanos mais altos por mais tempo alteram o custo do dinheiro em escala global e podem reduzir o espaço para aplicações e ativos considerados mais arriscados.
Inflação persistente sustenta a aposta do banco
O primeiro argumento do BofA é a força da economia dos Estados Unidos, que pode manter a pressão sobre os preços. O índice de preços ao consumidor (CPI) estava em 3,4% na comparação anual havia dois meses, nível ainda distante da meta de inflação de 2% mencionada pelo Fed.
Com a atividade econômica resistente, a autoridade monetária pode entender que há espaço para manter os juros elevados sem provocar imediatamente uma desaceleração intensa. O mecanismo é direto: taxas maiores encarecem empréstimos e financiamentos, reduzem o estímulo ao consumo e ao investimento e, com o tempo, ajudam a conter a demanda e a inflação.
Por que os títulos longos entraram no debate
O BofA também citou a alta dos preços do petróleo e o programa de recompra de títulos do Tesouro americano como fatores que aumentaram o receio dos investidores de uma inflação mais forte. Nesse ambiente, os rendimentos dos títulos de 10 e 30 anos vinham subindo e começaram a pressionar os preços das ações.
Na avaliação do banco, uma postura mais firme do Fed pode ajudar a controlar as expectativas de inflação e limitar a alta dos rendimentos dos títulos de prazo longo. Quando os juros desses papéis sobem, seus preços caem e o custo de captação para governos e empresas tende a aumentar, o que também reduz o valor presente de lucros futuros e pode pesar sobre as bolsas.
Warsh dá sinais de uma política mais dura
O economista Aditya Bhave, do BofA, afirmou que novas altas poderiam reforçar a percepção de independência do presidente do Fed, Kevin Warsh, diante da pressão do presidente Donald Trump por juros menores. Para Bhave, a decisão de elevar a taxa já na terceira reunião de Warsh pode permitir que ele atribua a si próprio uma eventual queda da inflação nos meses seguintes.
Warsh alertou que os preços elevados das commodities indicam pressão inflacionária, defendeu um retorno mais rápido à inflação de 2% e descreveu a alta de setembro como a retirada de apenas uma dose de estímulo monetário. Para Neil Dutta, da Renaissance Macro Research, esses sinais sugerem que o ciclo de altas pode estar mais perto do começo do que do fim.
O que a previsão significa para investidores e famílias
Para quem investe, a projeção aumenta a importância das próximas decisões do Fed, dos dados de inflação e dos sinais sobre a atividade americana. Juros mais altos nos Estados Unidos podem fortalecer a atratividade dos títulos americanos, pressionar ações e elevar a volatilidade de moedas e mercados emergentes, incluindo o Brasil.
Para consumidores e empresas, o efeito chega principalmente pelo custo do crédito internacional e pelo câmbio. Um dólar mais forte pode encarecer produtos importados e insumos, enquanto condições financeiras globais mais restritivas podem dificultar novos financiamentos. O próximo passo será observar se o Fed confirma a disposição de continuar elevando os juros ou se a economia e a inflação enfraquecem o suficiente para interromper o ciclo.
Impacto para a sociedade
Uma política de juros mais dura nos Estados Unidos pode encarecer o financiamento internacional e influenciar o câmbio, com possível efeito sobre preços de produtos importados no Brasil. Também pode afetar investimentos, crédito e decisões de empresas, embora o impacto sobre o consumidor brasileiro dependa da reação do dólar, da inflação e dos juros domésticos.
