Os temores sobre a segurança da inteligência artificial passaram a dividir com a perspectiva de um novo ciclo de alta de juros do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, a pressão sobre as ações em Wall Street na última semana. O resultado foi maior volatilidade: o Dow Jones caiu 1,7%, na terceira semana consecutiva de perdas, enquanto o S&P 500 recuou 0,08% e o Nasdaq subiu 0,7%.

Fed eleva juros e torna o mercado mais seletivo

O Fed aumentou a taxa básica em 0,25 ponto percentual na quarta-feira, para a faixa de 3,75% a 4%. Foi a primeira elevação em três anos e, embora já fosse amplamente esperada, os comentários do presidente Kevin Warsh sobre a inflação, considerada elevada por tempo demais, levaram as bolsas a uma queda acentuada no dia.

Juros maiores encarecem empréstimos para empresas e consumidores e podem desacelerar a atividade econômica. Além disso, tornam os títulos públicos americanos mais atraentes em relação às ações, reduzindo o incentivo para assumir risco. O rendimento da Treasury de dez anos terminou a semana em 5%, depois de superar 5,04% na terça-feira, o maior nível em quase duas décadas.

Bancos foram os mais afetados pela alta dos juros

O Dow concentrou a maior parte da pressão porque reúne empresas financeiras particularmente sensíveis ao custo do dinheiro e à perspectiva de menor crescimento dos empréstimos. A ação do Goldman Sachs caiu cerca de 8,5% na semana, o pior desempenho entre os papéis do índice.

Wells Fargo, BNY e Capital One também recuaram. Em ciclos de alta de juros, investidores tendem a buscar empresas menos dependentes de crédito e com receitas mais previsíveis. O BNY, por exemplo, tem aproximadamente 70% da receita baseada em tarifas, o que reduz sua exposição a custos maiores de depósitos e a uma eventual desaceleração dos empréstimos.

Debate sobre segurança da IA derruba ações de tecnologia

A outra fonte de instabilidade veio da discussão sobre os riscos da inteligência artificial de fronteira, formada pelos modelos mais avançados. O debate ganhou força após um texto publicado em 12 de setembro por Dario Amodei, presidente da Anthropic, defendendo uma desaceleração no desenvolvimento desses sistemas.

Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk apoiaram as preocupações, enquanto Jensen Huang, da Nvidia, e outros executivos argumentaram que as próprias empresas podem criar salvaguardas, testar os produtos e adiar lançamentos quando eles ainda não estiverem prontos.

Mercado reduz perdas após temor de freio nos investimentos

Na segunda-feira, a incerteza atingiu fabricantes de chips e empresas ligadas a centros de dados. Intel e Micron caíram pouco mais de 5%, enquanto GE Vernova e Eaton recuaram aproximadamente 9% e 8%, respectivamente. A lógica era que um desenvolvimento mais lento dos modelos poderia reduzir a demanda por chips, equipamentos e infraestrutura.

Ao longo da semana, porém, os investidores passaram a considerar menos provável uma mudança significativa no ritmo de expansão da IA. A competição entre empresas, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China e os incentivos financeiros do setor ajudaram a recuperar parte das perdas iniciais. A Salesforce, que havia avançado mais de 50% no trimestre, foi uma exceção entre as empresas de software e sofreu realização de lucros.

Petróleo adiciona risco à inflação e ao próximo passo do Fed

O petróleo também complicou o cenário. O WTI, referência nos Estados Unidos, e o Brent, referência internacional, atingiram na terça-feira os maiores preços desde meados de maio, diante de preocupações com a oferta provocadas pelo conflito no Oriente Médio. Ambos recuaram nos três pregões seguintes e terminaram próximos da estabilidade semanal, mas o movimento já havia afetado ações sensíveis aos custos de combustível, como Boeing e FedEx.

Para quem investe, o próximo período combina juros elevados, inflação ainda preocupante e dúvidas sobre o ritmo dos gastos com IA. Para consumidores e trabalhadores, uma desaceleração causada pelo crédito mais caro pode pesar sobre atividade e emprego, enquanto petróleo persistentemente alto pode encarecer combustíveis e outros produtos. A evolução desses fatores deve orientar a rotação entre setores defensivos, bancos e tecnologia, sem eliminar a volatilidade.

Impacto para a sociedade

A alta dos juros nos Estados Unidos pode encarecer o crédito e reduzir o ritmo da economia global, com possíveis efeitos sobre emprego, comércio e investimentos no Brasil. A alta do petróleo, impulsionada por tensões no Oriente Médio, também pode pressionar combustíveis e a inflação brasileira caso persista.