Especialistas avaliam que o CDI deve permanecer acima de 13% por um período prolongado, possivelmente por anos, mas divergem sobre a conveniência de alongar prazos em títulos públicos e crédito privado. A discussão ganhou força após o Banco Central reduzir a Selic para 13,75% ao ano e sinalizar cautela sobre os próximos passos, deixando em aberto o equilíbrio entre a segurança da liquidez e a possibilidade de travar taxas elevadas por mais tempo.
Juros altos podem continuar mesmo após o corte da Selic
Para Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, o corte desta semana aumenta a dificuldade para novas reduções. Na avaliação dele, o cenário mais provável é de pausa, salvo uma surpresa muito favorável, mantendo o CDI acima de 13% por um período relevante.
Edson Mendes, sócio-fundador da Private Investimentos, considera possível a continuidade do ciclo de cortes, mas ressalta que o Banco Central deve agir com cautela diante do risco fiscal, do petróleo acima de US$ 100 e dos juros dos títulos do Tesouro americano de dez anos próximos de 5%. Esses fatores podem manter a inflação pressionada e limitar o espaço para cortes mais rápidos.
Outro elemento de atenção é a redução do diferencial entre os juros brasileiros e americanos. Com a Selic em 13,75% e a alta dos juros nos Estados Unidos, a diferença caiu de 10,25 para 9,75 pontos percentuais. Um diferencial menor pode reduzir a atratividade relativa dos ativos brasileiros e aumentar a sensibilidade do câmbio e dos preços locais às decisões externas.
CDI preserva liquidez, mas títulos atrelados à inflação seguem no radar
Corano considera o CDI uma alternativa racional para grande parte dos investidores por combinar remuneração elevada, liquidez e menor oscilação de preço. Ele também alerta para o risco de as taxas reais, que descontam a inflação, voltarem a 8% ou superarem esse nível caso a confiança na economia se deteriore.
Mendes vê oportunidades nos títulos atrelados ao IPCA, mesmo com as taxas reais abaixo de 8%. Para ele, como é difícil identificar o ponto máximo dos juros, a construção gradual de uma taxa média pode ser mais relevante do que acertar exatamente o momento de entrada.
A Ghia Multi Family Office tem uma leitura mais favorável aos títulos de prazo intermediário. A casa avalia que boa parte da queda das taxas ainda não ocorreu e que o ganho potencial com uma redução dos juros pode superar a perda provocada por uma alta de mesmo tamanho.
Especialistas divergem sobre títulos longos do Tesouro
Os vencimentos intermediários, como o Tesouro IPCA+ 2032, são vistos por Mendes como um ponto de equilíbrio entre risco e remuneração. Já papéis com vencimento em 2040 e 2050 sofrem impacto maior no preço quando os juros mudam, porque têm prazo médio, ou duration, mais elevado.
Corano considera o título de 2032 uma posição tática e limitada e afirma não gostar dos papéis longos no cenário atual. A Ghia também evita prazos excessivamente longos e mantém uma duration próxima de seis anos, referência associada ao índice IMA-B.
O Tesouro Prefixado 2032, negociado perto de 14,34% ao ano, divide ainda mais as avaliações. Mendes aponta a necessidade de uma margem de segurança, já que o papel não oferece proteção contra a inflação. Corano vê risco de armadilha, enquanto a Ghia afirma não ter carregado prefixados nos últimos três anos.
O que fazer com ganhos acumulados nos títulos
Quem comprou títulos quando as taxas estavam acima de 8% pode ter obtido ganhos com a marcação a mercado, mecanismo que altera o preço do papel antes do vencimento conforme os juros do mercado mudam.
Mendes afirma que a decisão depende do objetivo original: quem pretendia levar o título até o vencimento não precisa alterar a estratégia por causa da oscilação; já uma posição tática pode ser parcialmente reavaliada. Corano alerta que uma alta dos juros pode devolver rapidamente parte do ganho acumulado e menciona a migração para aplicações pós-fixadas líquidas como uma possibilidade.
Crédito privado exige atenção ao emissor e ao prazo
No crédito privado, Corano considera forte uma remuneração de 100% do CDI em bancos grandes no ambiente atual. Em instituições menores, ele defende a exigência de um prêmio maior, sempre respeitando os limites de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O cenário combina retorno elevado no pós-fixado com incerteza sobre inflação, contas públicas, petróleo e juros internacionais. O próximo passo do Banco Central será acompanhado tanto pelo efeito sobre o CDI quanto pela reação das taxas mais longas, que definem o custo de financiamentos, o preço dos títulos e as condições para empresas captarem recursos.
Impacto para a sociedade
A manutenção de juros elevados encarece o crédito para famílias e empresas, pressionando financiamentos, empréstimos e o consumo. Ao mesmo tempo, aplicações pós-fixadas continuam oferecendo retorno elevado, enquanto a inflação e o petróleo acima de US$ 100 podem afetar o custo de produtos e serviços. A trajetória dos juros também influencia o ritmo de crescimento da economia e a geração de empregos.
