A Fiemg avaliou como preocupante a ampliação de despesas provocada pelo reajuste de 15% do Bolsa Família, anunciado nesta quinta-feira (17). A medida eleva o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 e o valor médio recebido pelas famílias de R$ 675 para R$ 777, com impacto estimado de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e de R$ 22 bilhões em 2027. A reação ajuda a explicar por que o mercado voltou a discutir a trajetória das contas públicas mesmo depois do corte da Selic.

Reajuste amplia a despesa em um momento de atenção fiscal

A preocupação não está apenas no valor individual pago aos beneficiários, mas no efeito acumulado de uma política que alcança um grande número de famílias. O aumento anunciado pelo governo representa uma expansão permanente ou recorrente das despesas, o que exige espaço no orçamento dos próximos períodos.

O montante, isoladamente, não foi considerado explosivo para as contas públicas por parte de alguns economistas. A avaliação também levou em conta que o reajuste recompõe a inflação acumulada desde o relançamento do programa. Ainda assim, a Fiemg destacou o risco associado à ampliação dos gastos e à percepção de menor controle fiscal.

Mercado mudou de direção após o anúncio

O anúncio interrompeu o efeito inicialmente favorável do corte da Selic, a taxa básica de juros, de 14% para 13,75% ao ano, decidido pelo Banco Central na véspera. Em condições normais, uma Selic menor tende a reduzir as taxas de mercado, baratear o crédito ao longo do tempo e favorecer ativos de renda fixa prefixada, ações e outros investimentos de maior risco.

Mas a possibilidade de aumento das despesas públicas levou os investidores a recalcular as expectativas para os juros futuros. O dólar subiu, o Ibovespa chegou a cair quase 3 mil pontos e as taxas negociadas no mercado futuro dispararam durante a manhã. Mais tarde, parte desse movimento foi revertida, e o índice acionário virou para alta.

Taxas do Tesouro Direto devolveram parte da alta

O Tesouro Direto chegou a interromper as negociações por algumas horas. Na reabertura, o Tesouro Prefixado 2032 passou de 14,15% para 14,34% ao ano, enquanto o Prefixado com juros semestrais 2037 avançou de 14,19% para 14,39%.

Nos títulos corrigidos pela inflação, o Tesouro IPCA+ 2032 saiu de 7,61% para 7,69% de juro real, e o papel mais longo foi de 7,19% para 7,26%. No entanto, as taxas recuaram na atualização das 15h23. O IPCA+ 2032 terminou em 7,66%, contra 7,68% no fechamento anterior; o IPCA+ 2040 ficou em 7,31%, estável, enquanto o IPCA+ 2050 manteve 7,24%.

Nos prefixados, o ajuste final também foi moderado: o papel com vencimento em 2029 passou de 13,89% para 13,90% ao ano, e o de 2032, de 14,24% para 14,26%.

Juros futuros ainda podem pressionar os títulos

A relativa estabilidade no Tesouro Direto não elimina o risco de novos ajustes. Esses títulos são precificados com base nas expectativas para os juros futuros, e movimentos persistentes nessa curva costumam aparecer nas taxas oferecidas aos investidores, ainda que com alguma defasagem.

Na quinta-feira, os vencimentos mais curtos, de até um ano, refletiram o corte da Selic. Já os prazos médios e longos subiram, com altas de até 1 ponto percentual. A taxa para novembro de 2029 avançou 1,07 ponto, para 14,14%, enquanto dezembro de 2029 subiu 0,97 ponto, para 14,12%.

O que o investidor e o consumidor devem acompanhar

O episódio mostra que uma redução da Selic não garante, sozinha, queda imediata de todas as taxas de mercado. Quando uma medida fiscal aumenta a percepção de risco, os juros longos podem subir, encarecendo financiamentos e dificultando a valorização de títulos prefixados e indexados à inflação.

O próximo foco estará na capacidade do governo de acomodar o reajuste no orçamento e na reação das expectativas para os juros. Para quem investe, trabalha ou toma crédito, a evolução das contas públicas será determinante para saber se o alívio produzido pelo corte da Selic prevalecerá ou será parcialmente neutralizado por uma curva de juros mais pressionada.

Impacto para a sociedade

O reajuste aumenta a renda de milhões de famílias beneficiárias, mas também amplia a despesa pública e pode elevar a preocupação com as contas do governo. Se essa percepção pressionar os juros futuros, o crédito pode ficar mais caro e o custo de financiamento da economia pode subir, mesmo após o corte da Selic.