Economistas avaliam que a Selic poderá voltar a ficar abaixo de 10% ao ano somente em 2028, mesmo com espaço para novos cortes no curto prazo. A projeção reforça que a velocidade da redução dos juros dependerá não apenas das decisões do Banco Central, mas também da estabilidade do real, do desempenho da economia e da credibilidade das contas públicas.
Próximo corte ainda é esperado para esta quarta-feira
O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, e o economista-chefe do Itaú Unibanco, Diogo Guillen, participaram da B3 Week nesta terça-feira (15), um dia antes da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Guillen indicou que seu cenário contempla uma nova redução da taxa básica nesta quarta-feira (16).
Depois da decisão, a evolução do câmbio e das demais condições econômicas deverá influenciar os próximos passos do Banco Central. Para Honorato, se o real permanecer relativamente estável e a atividade continuar enfraquecida, haverá espaço para manter o processo de flexibilização monetária, mas sem uma queda abrupta dos juros.
Contas públicas limitam o espaço para reduzir os juros
A avaliação dos dois economistas é que a política monetária não pode ser analisada separadamente da política fiscal. Gastos públicos elevados ou uma trajetória pouco clara para as contas do governo podem aumentar a percepção de risco, pressionar o câmbio e dificultar a queda dos juros.
Honorato rejeitou a ideia de atribuir exclusivamente ao Banco Central a responsabilidade pelo nível elevado da Selic. Ele afirmou que existem fatores estruturais no país, incluindo a rigidez das despesas, que ajudam a explicar por que os juros permanecem altos. Na sua visão, a melhora fiscal é necessária para sustentar taxas menores no futuro.
Como a política fiscal interfere na inflação
Estímulos fiscais podem aumentar a demanda por bens e serviços. Se a economia não tiver capacidade para acompanhar esse impulso, a pressão sobre os preços tende a crescer, exigindo uma resposta mais dura do Banco Central. Por isso, uma política fiscal expansionista pode retardar o ciclo de cortes.
Na direção oposta, uma sinalização mais confiável sobre receitas, despesas e endividamento pode melhorar as condições financeiras. Isso reduz a incerteza, favorece investimentos e pode permitir que os juros caiam sem provocar uma deterioração relevante das expectativas de inflação.
Cenário externo também pode atrasar a queda
A trajetória brasileira ainda será afetada pelas decisões do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Uma política monetária americana mais restritiva do que o previsto tende a fortalecer o dólar e pressionar o real, tornando mais difícil reduzir os juros no Brasil.
O ambiente internacional é relevante porque um câmbio mais depreciado pode encarecer produtos importados e aumentar a pressão sobre a inflação. Nesse cenário, o Banco Central precisaria agir com mais cautela, ainda que a atividade doméstica apresentasse sinais de perda de força.
O que a projeção significa para famílias e investidores
Uma Selic menor reduz, em geral, o rendimento de novas aplicações de renda fixa atreladas à taxa básica e pode diminuir gradualmente o custo de empréstimos e financiamentos. O efeito sobre o crédito, porém, não é imediato nem automático, porque também depende do risco de cada tomador e das condições dos bancos.
Para a bolsa e outros ativos de risco, juros mais baixos podem melhorar o ambiente de investimentos ao reduzir o custo de capital das empresas. Ainda assim, o próximo passo do mercado dependerá da decisão do Copom, do câmbio e das sinalizações fiscais, especialmente com a aproximação das eleições. Honorato avalia que o governo eleito precisará apresentar uma trajetória mais consistente para as contas públicas a fim de criar condições para uma queda estrutural dos juros.
Impacto para a sociedade
A trajetória da Selic afeta diretamente o custo de empréstimos, financiamentos e cartões, além do rendimento de aplicações de renda fixa. Uma eventual queda dos juros pode aliviar o crédito ao longo do tempo, mas depende da inflação, do câmbio e da confiança na situação fiscal do país.
